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MOVIMENTA BAURU: A história de como o movimento estudantil (não) foi construído na USP Bauru.

Como em todas as construções humanas, os motivos que nos levaram a dizer “Nós não podemos mais nos calar” são diversos, complexos e únicos para cada uma de nós, mas, sem dúvida, a revolta comum com a maneira com que o Movimento Estudantil se articulava na USP, e, mais ainda, com a maneira com que ele não se articulava no campus de Bauru, foi a principal causa do surgimento do coletivo, em 2010 que nomeamos de MOVIMENTA BAURU.

E surgimos.

Em, 2011, com apoio do Centro Acadêmico XVII de Maio, do qual a Camila ‘Peste’ e eu (Camila  ‘Curinthia’) fazíamos parte da gestão (como tesoureira e vice-presidenta, respectivamente), o Movimenta Bauru apresentou-se explicitamente à comunidade USP Bauru e ao mesmo tempo ao Movimento Estudantil, quando fizemos parte de um lamentável episódio de repressão por parte da diretoria da FOB USP ao proibir, censurar e ameaçar-nos quando espalhamos cerca de meia dúzia de cartazes, confeccionados em folha sulfite, com os dizeres ‘FORA RODAS’ pelo campus. Na ocasião o coletivo ganhou apoio de diversas entidades, porém, foi massacrado dentro do campus, com coordenação e apoio aos ataques vindos dos próprios professores.

Apesar da aversão, muitos alunos mostraram-se interessados e apoiadores às ideias que o Movimenta defendia.

Surgiu então a necessidade de delimitarem-se objetivos a alcançar e caminhos a percorrer, e foi assim traçada a meta de inserir o discurso político e contestador no cotidiano dos estudantes de Bauru e, ao mesmo tempo, mostrar que há um jeito diferente de militância, que não existe a obrigatoriedade de um curso da área de humanas para que exista um movimento de estudantes, de que não é preciso usar um linguajar restrito e segregador para falar de esquerda.

E conseguimos.

Quando assumimos a gestão do Centro Acadêmico no final de 2010, praticamente nenhum aluno sabia sequer o que era um centro acadêmico, era comum afirmarem que o c.a. era um prédio – isso porque temos uma sede,  cedida pela FOB, que fica longe do campus. Hoje, com a nossa saída, os alunos estão se articulando para tentarem montar uma chapa de gestão do c.a. Ainda que não seja da maneira que acreditamos que deveria ser, vemos com bons olhos o interesse do aluno de Bauru; antes alheio e alienado às questões da Universidade e da sociedade, agora, ao menos, tentando se inserir nas organizações estudantis.

Ainda que não tenhamos conseguido trazer a comunidade FOB para a militância de fato, conseguimos realizar diversas atividades dentro e fora do campus, como mostras de vídeos, grupos de discussões, intervenções culturais e articulações com outros grupos de Bauru, como o movimento estudantil da UNESP.

Obtivemos apoio e admiração por parte de alguns grupos de alunos e funcionários.

E veio a repressão.

A perseguição política por parte da diretoria e gestores que sofremos, como resposta às nossas ideias, encontrou no perfil do aluno de Bauru submissão e medo necessários para que fossem acatadas as ideias de ódio e revolta contra quem ousasse trazer para Bauru as ‘imundices desses estudantes de humanas’, no caso nós, a Peste e a Curinthia.

Sem exceção nenhuma, todos os apoiadores que costumavam participar das reuniões e atividades propostas pelo Movimenta Bauru foram ou subornados com bolsas de pesquisa ou de intercâmbio, ou ameaçados de reprovação, sendo necessário que mudassem sua postura.

Em contrapartida, os alunos que se mostraram, desde o princípio, contrários ao coletivo (alunos do curso de odontologia, principalmente) foram encorajados e incitados a negar, reprimir e deslegitimar violentamente o movimento de estudantes. E quando digo violentamente, é exatamente o que quero dizer: agressões fortíssimas – estranhamente feitas apenas por facebook, nunca pessoalmente –  como, por exemplo, nos sugerirem trocar de curso, ao invés de pretendermos acabar com a paz de Bauru, ou me mandarem cuidar dos meus dois filhos, pois essa deveria ser minha preocupação.

A ideia de que somos o campus USP perfeito, de que aqui não há problemas, e de que os problemas dos outros não eram nossos fora quebrada, e trataram logo de tentar reconstruí-la, de tentar impedir que mais alguém dissesse isso.

Os boicotes foram muitos:

– no começo de 2012, quando assumi a presidência do centro acadêmico, fui proibida de sentar a mesa para recepcionar aos calouros (ato tradicional, no primeiro dia de aula, junto a outras pessoas representantes da comunidade USP Bauru)

– também fui proibida de participar do hasteamento da bandeira no dia do aniversário da faculdade, outra tradição por aqui.

-Quando o curso de fonoaudiologia passou por avaliação, no primeiro semestre de 2012, apesar de a Camila Peste ser representante discente do departamento de fonoaudiologia, e eu ser a representante discente do curso de fonoaudiologia na Comissão de Graduação e na Congregação, fomos proibidas de conversar com as avaliadoras.

-Enquanto morávamos no CRUSP havia um ‘caderninho’ específico para anotar os movimentos das Camilas.

-Ainda no primeiro semestre, sofremos processo administrativo com intuito de expulsão do alojamento. Após ameaça de sindicância, fomos gentilmente convidadas a nos retirar do CRUSP, quando fomos contempladas com o auxílio-moradia (mesmo havendo muitas vagas ociosas no alojamento).

– Por um período de cerca de quatro meses, passaram a não nos mandar as pautas e atas das reuniões que deveríamos participar como representante discente.

– A Peste, representante discente na Cog, apesar de procurar o professor presidente da Comissão de Graduação antecipadamente para poder acompanha-lo nas viagens até São Paulo com carro e motorista da USP, todo mês era ‘esquecida’ aqui por Bauru, e quando não era deixada para trás sofria retaliações das professoras, por ausentar-se do estágio ou da aula.

-A USP Bauru recebeu um prêmio pela Semana de Recepção aos Calouros, que deveria ter sido entregue ao centro acadêmico, mas foi recebido às escuras pela direção da instituição.

-Recebíamos ameaças diretas de reprovação em algumas disciplinas, caso não nos preocupássemos apenas com a graduação.

-Também nos ameaçaram que colocariam em nosso histórico a nossa subversão.

-No último sábado, ao chegarmos no prédio do c.a. fomos proibidas de ali entrar. O segurança chamou reforços e nos explicaram que as Camilas da Fono estavam proibidas de acessar o espaço – apesar de sermos da atual gestão do centro acadêmico.

Enquanto o clima de tensão se espalhava perdíamo-nos na falta de ‘braços’ e de ‘cabeças’ para construir o que quer que fosse em Bauru. Além de perdermos apoio interno, pois os simpatizantes simplesmente amedrontaram-se, não encontramos apoio externo para construir um movimento de luta contra o que estava sendo praticado, nem para construir trabalho de base, tampouco para defendermo-nos.

Tentamos resistir.

Ao perceber o pânico que representávamos, usamos essa atenção para criar algumas discussões, levantar questões sociais, feministas e educacionais, e incitar que ao menos deveriam ser pensadas. Infelizmente não conseguimos transpor o debate além internet, mas ao menos ele existiu de alguma maneira.

Hoje, ao repensar a trajetória desse projeto chamado Movimenta Bauru, conseguimos enxergar os frutos, pois muitas sementes foram espalhadas, muitos alunos encontraram apoio e sentido em suas próprias ideias ao dialogar conosco, outros tantos nos procuraram para esclarecer dúvidas, para levantar discussões. Atualmente há um clima de contestação, principalmente no curso de fonoaudiologia, muito aquém ainda do necessário ao desenvolvimento do debate, porém inédito até então. Somos referência quando alguém quer saber se determinada imposição é legal ou justa, quando alguém sente algum tipo de violência moral (que é muito forte aqui) ou quando alguém precisa desabafar sobre as injustiças do mundo.

Individualmente, crescemos e fortalecemo-nos muito com essa experiência, e pretendemos dar continuidade a esse trabalho, agora além de Bauru e além do ME.

É realmente triste que não tenhamos conseguido alcançar resultados mais consistentes, mas temos a clareza de termos explorados todas as oportunidades que tivemos e criado as que foram possíveis.

Duas alunas, sozinhas, com pouco apoio externo e quase nenhum interno, fazendo esse alvoroço todo… Tem mesmo alguma estranha nos bastidores desse teatro chamado USP Bauru.

O Movimento Estudantil na USP de Bauru não venceu e não convenceu, e partilhamos nossas conclusões após essa enriquecedora jornada não para explicar o porquê de termos falhado, mas para alertar sobre a necessidade do apoio, do trabalho de base, da troca de experiências e informações entre todo o movimento de estudantes, para que ele se fortaleça de verdade e alcance os tão sonhados objetivos.

Agregar e não dividir.

A luta sempre continua!

Abraços a tod@s.

Curinthia e Peste.

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Estudantes em movimento por um DCE em movimento! Carta-programa da chapa Universidade em Movimento

Amanhã,

A tristeza vai transformar-se em alegria,

E o sol vai brilhar no céu de um novo dia,

Vamos sair pelas ruas, pelas ruas da cidade,

Peito aberto,

Cara ao sol da felicidade.

Construir o movimento estudantil cotidianamente é tarefa de muitos; de todos que se preocupam com os rumos da Universidade e de nosso país, que acreditam que a Universidade não deve ser de uma minoria, que defendem um ambiente livre para a livre produção de conhecimento, que querem uma Universidade mais povo, mais operária, mais camponesa, mais negra, mais mulher.

É por isso que existimos e nos organizamos; por acreditarmos ser possível colocar a Universidade em Movimento. A USP é a universidade mais elitista do Brasil, além de ter uma estrutura de poder arcaica e antidemocrática que possibilita à Reitoria administrá-la como  bem entende. Essa é uma estrutura que precisa ser transformada, mas isso só acontecerá se atuarmos coletivamente, agregando mais estudantes que, assim como nós, estão em seus cursos e seus campi acreditando ser possível fazer um movimento estudantil diferente.

Como é a descrição no próprio site do DCE, “o Diretório Central dos Estudantes da USP, DCE Livre Alexandre Vannucchi Leme, é a entidade representativa dos estudantes tanto dos campi da capital como dos campi do interior, com a função de organizar e de expressar as vontades, anseios e posições políticas dos estudantes”. É com foco na ideia de organizar os estudantes que pensamos a necessidade de o DCE estar sempre ligado às entidades de base (Centros Acadêmicos) para atuar de maneira plural, ampla e levando sempre em conta as diversas realidades dos cursos da USP.

Nos lançamos com 64 integrantes dispostos a tocar a gestão do DCE. Acreditamos que esse número seja suficiente, e preferimos não inflar nossa chapa com o nome de pessoas que, na prática, serão nossos apoiadores. Além disso, cremos que uma gestão não funciona se os Cas e todos os estudantes não construírem o Movimento Estudantil cotidianamente – ou seja, o bom andamento de uma gestão não depende de um grande número de integrantes.

Vinculada à eleição de DCE está a eleição para Representantes Discentes (RDs). Estes são os estudantes que participam e atuam nos órgãos colegiados centrais da USP, como o Conselho Universitário, o Conselho de Graduação e o de Pós-Graduação , e as Comissões Permanentes da Universidade – como a de Legislação e Recursos. Os RDs são fundamentais para travar um diálogo entre as instâncias da universidade e os alunos. Ainda que sejam poucas as nossas cadeiras, não podemos deixar de preenchê-las, de participar das reuniões e de atuar conjuntamente com os servidores docentes e técnicos-administrativos.

Os métodos do movimento estudantil

Pensamos a democracia como uma determinada vivência política, algo que não se resume à estrutura de poder dos espaços (in)disponíveis. Com essa concepção, consideramos que, para reivindicar democracia na universidade, o movimento estudantil deve, também, ser democrático, carregando o diálogo e a prática da unidade como premissas fundamentais,  que vão além de um discurso bonito e facilmente bem recebido. Para que não nos contentemos com palavras de ordem, é preciso entender para que serve o DCE – ou para que deveriam servir as entidades representativas do Movimento Estudantil, como o DCE e os CAs.

Nesse sentido, é fundamental que entendamos, em primeiro lugar, que a força de nosso movimento reside justamente no nosso número e na nossa capacidade de mobilização. Somos diferentes grupos, diferentes opiniões, e é papel das entidades articular essas pessoas – seja buscando consensos entre posições divergentes, seja aproximando lutas semelhantes de lugares distantes. O que se vê hoje, ao contrário, são coletivos disputando a direção do movimento e que muitas vezes confundem mobilizar e politizar os estudantes com atraí-los para seus coletivos. Ora, é natural que existam grupos políticos diversos atuando na universidade e que defendam diferentes atuações, mas é a atuação em frentes unitárias, e não a luta fratricida, que gera força para o movimento estudantil.

Articular os Centros Acadêmicos

O Conselho de Centro Acadêmicos (CCA) é um espaço com um potencial muito grande para fortalecer e ampliar as relações entres os CAs, fortalecendo, assim, o movimento estudantil como um todo, tornando-o mais coeso e orgânico. Para isso, no entanto, é necessário que o CCA seja construído de maneira democrática:  (i) ele precisa ser, além de periódico (no caso, mensal), rotativo, para que estimule a participação de todos os CAs e não apenas dos da capital; (ii) a pauta deve ser encaminhada com antecedência de, no mínimo, duas semanas, para os CAs terem tempo de debater nos cursos, com os estudantes, a fim de levar posicionamentos mais representativos de sua base; (iii) se a gestão do DCE for apresentar propostas de encaminhamento, essas propostas devem ser enviadas previamente para os CAs também, de modo que nenhum debate seja feito sem consulta prévia aos estudantes, que são, afinal, meio e fim de nosso movimento.

Acima de tudo, o CCA deve ser um espaço que abarque a diversidade do movimento estudantil da USP. Porque mais importante do que a aprovação ou não das propostas de um ou de outro grupo é o movimento caminhar junto, lado a lado. O CCA é fundamental, porque acreditamos que o movimento estudantil da USP só será forte se os Centros Acadêmicos de cada curso estiverem integrados à realidade de seus cursos, conhecendo os estudantes e construindo movimentações que façam sentido para todos. O Encontro de Centros Acadêmicos (EnCA), é um espaço privilegiado para a troca de experiências e para formação política; ele deve ser construído pelo conjunto dos CAs, visando a responder os desafios que encontram no dia a dia de sua prática.

Articular os estudantes

Acreditamos que um DCE verdadeiramente representativo precisa conhecer as diferentes realidades dos diversos cursos e campi da USP – ou seja, é preciso ir além da FFLCH e do Butantã, e abarcar todos e todas em um movimento aberto e plural. Com isso em vista, consideramos essencial reconhecer o movimento político que há fora das atuações do tal “movimento estudantil”, entendido como à parte da maioria dos estudantes. Debates que ocorreram na FEA sobre a instalação de catracas, por exemplo, são parte daquela realidade, e devem ser encarados com a devida importância, respeitados e considerados, sim, como parte do movimento estudantil.

Para conseguirmos articular as diferentes realidades da USP, são necessários mecanismos de comunicação eficientes. O site do DCE deve conter informativos e convocatórias para diversas atividades – sejam elas organizadas pelo Diretório, por grupos de estudo, de extensão ou centros acadêmicos. É preciso, ainda, um boletim virtual a cada CCA realizado, publicizando a todos as discussões realizadas – para que atinjamos o maior número possível de estudantes. Um jornal impresso do DCE também deve ser produzido, inclusive com textos de pessoas que não são da gestão – para que a entidade seja construída, não a chapa vencedora. Acreditamos que esses são alguns dos desafios para construir um DCE que dialogue para além da FFLCH e do Butantã; um DCE tomado pelos estudantes.

Articular-se com outros fóruns e com as outras categorias

O DCE também deve estar em constante contato com outros grupos que fazem política em questões mais específicas, como a Associação de Moradores do Conjunto Residencial da USP (AMORCRUSP) e as associações de moradores de complexos residenciais de outros campi, além de estudantes que lutam pela criação de residência em campi onde ainda não há. É preciso também diálogo com a Associação dos Moradores da São Remo e outros grupos fora da USP que realizam luta social, entendendo que a nossa luta por permanência estudantil/moradia é parte de algo muito maior, fazendo com que nosso alcance ultrapasse os muros da Universidade.

Além disso, o contato com outras categorias da universidade deve ser intensificado, através de reuniões abertas com o Sindicato dos Trabalhadores da USP (SINTUSP), com a Associação dos Docentes da USP (ADUSP) , com Associação dos Pós-Graduandos (APG-Capital), com o Núcleo de Consciência Negra da USP,  entre outros.

Um dos maiores exemplos de articulação entre as categorias é o Fórum Aberto Pela Democratização da USP – responsável, atualmente, pela Campanha por uma Comissão da Verdade da USP. Congregando vários Centros Acadêmicos, o DCE, Sintusp, Adusp, além de diversos grupos políticos e independentes, o Fórum Aberto mostrou ser possível a unidade entre as categorias e diversos setores da Universidade, tendo em vista uma lúta conjunta. Esse espaço deve servir de exemplo para o Movimento Estudantil, ultimamente carente de momentos de unidade real.

A ocupação dos espaços

Ocupar o espaço público é ocupar a vida política da nossa universidade. A USP é uma universidade pública, que deveria ter seus espaços tomados por produções artísticas, debates políticos, atividades culturais. No campus Butantã, a sede do DCE fica ao lado do Bandejão Central e deve ficar aberta cotidianamente, não apenas quando há reuniões. Queremos que os estudantes ocupem de fato e com frequência aquele local, com café, com a exibição de filmes, saraus e, festas e happy-hours semanais. Além disso, acreditamos que é fundamental defender os espaços estudantis, em todas as unidades e todos os campi. São neles que vivenciamos parte importante da vida universitária.

As festas são momentos importantes para construir a sociabilidade necessária ao espaço universitário, para ocupar o espaço público, além de garantir o financiamento da entidade. Além disso, a contribuição dos Centros Acadêmicos também é importante para garantir a vida financeira do DCE, mas é fundamental que, em contrapartida, haja prestação de contas durante o ano para que os estudantes saibam como são as movimentações financeiras da nossa entidade. Se cobramos transparência da reitoria, também precisamos de transparência na gestão das nossas entidades.  Por fim, pensamos que a produção de materiais do DCE, que resgatem a imagem da nossa entidade e de Alexandre Vannucchi Leme, como marcadores de página, adesivos e camisetas, é uma possibilidade para avançarmos na construção de um DCE presente.

O povo na universidade

Certamente, é possível dizer que a Universidade de São Paulo é, sob alguns pontos de vista, uma universidade de qualidade – mas para quem? A que serve a USP? Para apontar alguma resposta, exige-se que nos debrucemos sobre sua fundação: quais interesses permearam sua criação e qual o conceito de educação adotado durante seus 78 anos de existência. Faz-se necessário, sobretudo, entender que os questionamentos que fazemos atualmente vêm desde sua fundação e refletem um problema histórico, ainda que agravado por circunstâncias atuais.

A USP, assim como a Escola Livre de Sociologia e Política, surgiu como uma forma de preparar a elite paulistana para dirigir o país. A ideia era que essas instituições formulassem um projeto de sociedade assentado no pensamento liberal, cumprindo, portanto, um papel civilizatório.

Os primeiros limites desse projeto se mostraram quando a Universidade não conseguiu mais atender as demandas da classe média emergente, sofrendo pressão para uma expansão de vagas – iniciou-se, assim, uma primeira reflexão sobre o papel da Universidade. Em 1962, existia um amplo movimento pela democratização da Universidade, pensando um projeto para além das demandas das elites paulistanas, barrado pela ditadura.

Nós, do Universidade em Movimento, em contraposição a esse projeto, queremos uma universidade pública, popular, aberta e democrática. Somos contrários às privatizações em curso e à pressão colocada por fundações de apoio dentro da universidade, e alimentadas pela reitoria. O financiamento da universidade deve ser exclusivamente público, garantindo sua autonomia para a produção de conhecimento, e impedindo a interferência de interesses mercadológicos na produção acadêmica. A USP  deve estar alicerçada nas demandas da maioria da população que a sustenta, tendo seu caráter público deve ser assegurado – ou melhor, conquistado verdadeiramente.

A universidade, quanto a seu espaço e a sua dinâmica, não é aberta à sociedade. Para transformar isso, defendemos a democratização do acesso à universidade, tanto através das cotas quanto pela necessidade de pensarmos expansão de vagas na USP e criação de mais universidades, visando o acesso universal.

Por todo o histórico da USP, sabemos que será muito difícil garantir a implementação de qualquer política que amplie o acesso à camada mais pobre da população em nossa universidade. Defendemos, no entanto, a implementação de cotas sociais e raciais no vestibular da USP. Para tanto, é fundamental construir essa pauta junto ao Movimento Negro – que já atua na USP, com o Núcleo de Consciência Negra e a Frente Pró-Cotas, dos quais o movimento estudantil não deve se apartar.

Acreditamos que cotas raciais e sociais são fatores imprescindíveis para democratizarmos a USP, que hoje é uma universidade quase homogênea em sua composição social e racial, garantindo equidade social e maior pluralidade na composição universitária. Por termos esse entendimento, entregamos uma de nossas cadeiras no CO ao Núcleo de Consciência Negra, por seu protagonismo na luta pelas cotas raciais na USP (e pelos direitos da população negra em geral), principalmente no ano de 2012, em que a discussão sobre as cotas está cada vez mais em voga.

Além do acesso, a permanência dos estudantes deve ser garantida. Atualmente a USP destina cerca de 3% de seu orçamento para todas as suas políticas de permanência e assistência estudantil, que envolvem moradia, subsídio alimentício e transportes nos campi. Um exemplo claro da insuficiência da atual política de permanência são os dados acerca da quantidade de vagas e bolsas de moradia: a USP disponibiliza apenas 1356 bolsas de auxílio moradia e 2703 vagas de moradia para o total de 88.000 estudantes.

As bolsas de auxílio moradia também têm um valor irrisório para a/o estudante que precisa se manter na Universidade (principalmente na Capital) e a situação piora quando tratamos de estudantes que são mães. A concessão do benefício de permanência também é feita de maneira suspeita, sem esclarecimento a respeito de quais são os critérios utilizados.

É necessário que o Movimento Estudantil construa uma proposta concreta de ampliação qualificada das políticas de permanência na universidade. Propomos a criação de um Fórum das Moradias, que se configuraria enquanto espaço privilegiado para articular e discutir propostas e encabeçar uma Campanha pela Permanência Universitária na USP, abarcando grupos e entidades para além do ME.

Essas considerações expressam que, para nós, reivindicar democracia na universidade vai além da exigência de uma revisão da estrutura de poder, mas significa, precisamente, o amplo acesso da população à universidade, a gratuidade ativa e a garantia de universidade de qualidade para o povo.

Mulheres na Universidade

A Universidade não está excluída do restante da sociedade e, portanto, não está imune às suas contradições, entre elas o machismo. A USP, portanto, ainda que seja considerada um “pólo de excelência”, reproduz e recria, desde a produção do conhecimento, até as políticas de permanência, o machismo e a misoginia.

Nesse sentido, é preciso que as mulheres se organizem também na Universidade. Em 2011, construímos ativamente o I Encontro de Mulheres da USP (EME), e participamos da Frente Feminista desde sua criação.

O EME foi um importante espaço para formulação política, articulação e ação das mulheres, sendo essencial para pensarmos coletivamente os problemas que as mulheres sofrem na Universidade, e mais: foi essencial para pensarmos em soluções para esses problemas.

O primeiro encontro tirou deliberações importantes, aprovadas também no XI Congresso dos Estudantes da USP. Essas deliberações devem ser levadas a cabo pela gestão do DCE, como campanhas contra trotes machistas, pelo aumento das bolsas de auxílio aos estudantes, além de uma campanha contra a violência sexista.

A pauta feminista é de suma importância, e deve ser levada adiante por todo o Movimento Estudantil, incluindo aí as entidades estudantis – DCE e Centros Acadêmicos -, não sendo, portanto, tratada como algo secundário.

Propomos, além de continuar a articulação da Frente Feminista, realizar também o II Encontro de Mulheres Estudantes da USP, para dar continuidade ao processo que se iniciou em 2011, de fortalecimento e ação unitária do Movimento Feminista na USP.

Diversidade sexual

Assim também em relação ao movimento LGBTT: devemos buscar os grupos que atuam na USP e que têm tido pouquíssima visibilidade. Vimos membros da atual gestão empenhados em divulgar o Encontro Nacional Universitário de Diversidade Sexual (ENUDS), mas não enquanto uma política do DCE. É preciso que essa seja uma política de gestão, e tocada pela Entidade, fazendo com que todo o Movimento Estudantil seja parte dessa pauta.

Comprometemos-nos a garantir discussões e a fortalecer os coletivos e grupos de trabalho que estudam gênero e sexualidade, além de outros temas que atravessam a vida universitária. O conhecimento sobre a história da USP e do movimento estudantil pode ser mais bem disseminado e fomentado através de debates abertos e de grupos de estudos e o DCE deve exercer um papel de articulador e divulgador desses grupos.

Gestão comunitária

No Conselho Universitário da USP os estudantes de graduação correspondem a 10% do total de docentes do CO, os de pós são 5% e há apenas três cadeiras para os servidores não-docentes. A USP está entre as universidades mais antidemocráticas do país, não respeitando sequer o artigo 56 da Lei de Diretrizes e Bases, segundo o qual a representação docente nos colegiados e na escolha de dirigentes não deve passar de 70% – e cada uma das outras categorias dispõem de 15%, como ocorre em 16 universidades federais. A UNIFESP e a UFMG são exemplos de universidades que adotam esse modelo.

Já outras 37 federais, como a UFSCAR e a UFRJ, estabelecem um terço de cadeiras para cada categoria.  No 4º Congresso da USP, com a participação de estudantes, professores e funcionários técnico-administrativos, foi aprovada a defesa desse modelo paritário nas instâncias deliberativas da universidade e das unidades. Há, portanto, um acúmulo que precisa ser resgatado, além dos variados exemplos de universidades que devem ser estudados para que tenhamos clareza do que desejamos ao propor uma mudança na estrutura da universidade. O GT Estatuinte, grupo que estuda a estrutura de poder na universidade a partir de atas, artigos, entrevistas e outros materiais, exerce um trabalho imprescindível no sentido de fundamentar nossas bandeiras.

A busca por ampliar a participação de estudantes e servidores nas instâncias de gestão da universidade e das unidades exige estudo e diálogo com as outras categorias. Não basta partimos do pressuposto de que o modelo paritário é um ideal óbvio para todos e repetirmos exaustivamente essa palavra de ordem.

O processo de escolha do Reitor evidencia a necessidade de mudanças. Além dos candidatos restringirem-se aos professores titulares (o mais alto grau da carreira acadêmica docente), o colégio eleitoral (que no primeiro turno congrega menos de 2% da comunidade universitária), cai para cerca de 0,3% no segundo turno, no qual os professores titulares representam cerca de 85%. Como se não bastasse, a decisão final é tomada pelo Governador do Estado, que escolhe entre a lista tríplice que lhe é enviada. Isso fere a autonomia universitária, pois o reitor será aquele com afinidades políticas e ideológicas com o Governo do Estado. Além disso, o fato de o governador ser aquele que escolhe o reitor não significa que há um “controle social” da Universidade, pois isso demandaria uma mudança de toda sua estrutura, que é extremamente conservadora.

Como no próximo ano teremos eleições para reitor, é imprescindível que o ME se articule com as demais categorias para se posicionar diante desta questão, através de um debate aprofundado de nossas estruturas e da reivindicação de ampliação da participação neste processo, atrelada à luta por uma estatuinte soberana.

Memória, verdade e justiça para democratizar a Universidade

Hoje, uma das pautas de maior destaque em toda a sociedade brasileira é a necessidade de recuperarmos nossa memória nacional do período da Ditadura Militar, através da Comissão da Verdade Nacional. Dentro da USP não é diferente. Nossa Universidade foi palco de inúmeros acontecimentos durante o período da Ditadura, com a cassação, eliminação, prisões, assassinatos, demissões e aposentadorias compulsórias de estudantes, professores e funcionários técnico-administrativos. Estima-se que dos aproximadamente 500 desaparecidos políticos durante a ditadura, 40 eram funcionários, professores ou alunos da USP, além da truculência ocorrida durante a invasão e depredação da Faculdade Maria Antônia e a invasão do CRUSP em 1968, com a prisão de mais de 800 estudantes.

Nesse sentido, faz-se necessária a criação de uma Comissão da Verdade da USP – campanha encabeçada pelo Fórum Aberto pela Democratização da USP, sobre o qual já falamos anteriormente -, para que esses acontecimentos sejam revistos, e os fatos investigados e apurados. Essa Comissão serviria para pensarmos também a estrutura de nossa Universidade, e como a forma como ela é hoje baseia-se num modelo autoritário de sociedade – como o regime disciplinar feito em 1972, que ainda hoje legitima e baliza processos e expulsões.

Uma Comissão da Verdade é, portanto, parte do nosso resgate nacional, coloca o povo brasileiro como sujeito histórico, protagonista das mudanças sociais, reivindicando seu direito de rever os fatos históricos, abrindo a possibilidade de construirmos um outro futuro.

A ampliação das discussões sobre modelos de gestão e o estatuto das instituições da universidade devem construir um processo estatuinte, apontando propostas concretas, como ocorreu no 4º Congresso da USP. Nesse sentido, também é urgente o empenho em organizar um novo Congresso da USP, junto aos docentes e funcionários.

A universidade para o povo

Por fim, ao defender o povo dentro da universidade, defendemos simultaneamente a produção de conhecimento para o povo, não para o mercado. A extensão sofre uma carência de popularidade na USP, pois rompe com a lógica atual de uma aprendizagem que se realiza apenas nas salas de aula. Vai além porque ela só se realiza enquanto tal quando conseguimos sair dos muros da universidade e aprender para além dela. Está além das perspectivas da sala de aula e dos objetivos das pesquisas acadêmicas. Quando falamos de extensão, falamos em rever o cotidiano e em lidar com o que é diário com outro olhar: o de estender nosso conhecimento e nossas técnicas e de reformulá-las coletivamente.

Colocar a Universidade em Movimento é colocar as demandas e os saberes populares na ordem do dia das produções e dos viveres acadêmicos, e no cotidiano de toda uma sociedade, que carece de perspectivas reais de mudança social, econômica e política, para sua real emancipação.

Os grupos de extensão que temos hoje têm um papel fundamental e devem ser estimulados. Afinal, também é com o apoio dos movimentos sociais da cidade e do campo que teremos mais forças para obter vitórias, e a extensão universitária é fundamental para estabelecer essa relação, entre a Universidade e os Movimentos Sociais. Dessa forma propomos e defendemos também a realização de uma Semana de Movimentos Sociais, abrindo um espaço para maior conhecimento de outras realidades e de outros grupos que também lutam por uma sociedade mais justa e igualitária, e para fomentar esse diálogo.

No que tange à educação no âmbito nacional, o novo Plano Nacional de Educação que está em debate no Congresso contém as diretrizes para a educação durante os próximos dez anos e versa sobre seu financiamento. Infelizmente, a proposta que está tramitando apresenta uma série de problemas. Além de abrir as portas para a privatização da educação, desconsidera critérios básicos para garantia da qualidade educacional, como o CAQ (Custo Aluno Qualidade) ou a diminuição de estudantes por salas de aula. No entanto, os 10% do PIB em investimento na educação, exigência do Plano elaborado pela sociedade civil desde a década de noventa, foram aprovados recentemente na Comissão Especial do Plano Nacional de Educação na Câmara. Somos favoráveis a essa pauta, e agora é preciso fazer pressão política e popular para que os 10% sejam efetivados.

A educação pública, gratuita e de qualidade é um direito inalienável, previsto na Constituição, e o Estado deve garanti-lo. Mesmo em um país rico como o Brasil, hoje sexta economia do mundo, ainda investimos muito pouco em educação (cerca de 5% do PIB). Em 2009, o governo gastou 44,93% de todo o orçamento da União com o pagamento de juros, amortizações e com a rolagem da dívida pública. Só em 2011, foram R$ 230 bilhões gastos em juros da dívida, o que torna injustificável argumentar que não há verbas para investir um total de R$ 450 bilhões em dez anos para a educação.

Lutamos por outra lógica para a educação no país: inclusiva, crítica, gratuita, pública e socialmente referenciada. Para isso, exigimos que o Plano Nacional de Educação garanta ao menos os 10% do Produto Interno Bruto nesta área. É nosso desafio enquanto movimento social pressionar o poder público em relação a essa questão e trazê-la para a discussão na sociedade civil.

Todas essas considerações devem ser tomadas como um desejo de mudança não só da universidade, mas de toda a sociedade. A reivindicação por mais moradias estudantis representa um ideal de melhores condições de habitação para todos os cidadãos. A luta contra o machismo, o racismo e a homofobia e pela desmilitarização da polícia militar são bandeiras dentro da USP e fora dela.

A desmilitarização da polícia foi, inclusive, uma recomendação do Conselho de Direitos Humanos da ONU para o Brasil no último mês de maio, pois os países daquele órgão entenderam que o Brasil deve combater a atividade dos “esquadrões da morte” da Polícia Militar. Acreditamos que essa instituição não exerce o papel de garantir a segurança da população. Pelo contrário, é um instrumento repressor, principalmente na periferia.

A recente ocupação da favela de São Remo, vizinha do Campus Butantã, evidencia a violência com que a polícia e o governo do estado de São Paulo tratam a camada mais pobre e negra da população. Neste caso também está presente uma pretensão higienizadora, como se viu na operação no bairro da Luz, do centro da Capital.  É preciso que o ME atue em conjunto com os movimentos que pautam esse debate, como o Movimento de Moradia e o Movimento Negro, bem como movimentos de direitos humanos, para termos uma dimensão maior sobre a questão.

Nesse sentido, também somos contra a censura e a punição à expressão política, cuja consequência na USP foram mais de 70 processos contra estudantes, e a eliminação/demissão por motivos políticos de estudantes e funcionários no último ano, cuja base legal é o decreto já citado antes, da época da Ditadura Militar, que não foi suprimido na reforma estatutária ocorrida no processo de democratização de nosso país.

Estudantes em movimento por um DCE em movimento!

Por todos esses motivos que elencamos, fizemos esta chapa. Queremos mudar a Universidade, e sabemos que isso só é possível através da nossa força, da nossa mobilização, através de muita gente atuando coletivamente. Por isso, é preciso que tenhamos uma entidade participativa no cotidiano dos estudantes, que dialogue com as entidades de base e consiga chegar, de fato, a toda USP. Mais do que centenas integrantes, temos muita vontade e um plano concreto de como colocar nossas ideias em prática, levando em consideração a quantidade de pessoas e a diversidade de realidades da USP. O Movimento Estudantil precisa se reformular, encontrar novas formas, construir-se de forma ampla e plural. Só dessa maneira conseguiremos construir a Universidade que está em nossos sonhos, em nossos desejos e em nossas necessidades.

Para todos juntos construirmos um novo tempo, a Universidade tem que estar em movimento!

 

Plebiscito pela Democratização da USP: participe!

Entre os dias 22 e 26 de Outubro acontecerá o Plebiscito pela Democratização da USP, com urnas abertas em diversos cursos e no Bandejão Central.
Um plebiscito serve para mais do que saber a opinião daqueles que participam; é também para promover e aprofundar debates, ampliar os conhecimentos sobre as temáticas abordadas, colocar as pautas em foco, despertar o interesse das pessoas pelo debate.

Estrutura de poder na USP: um debate antigo

A questão da estrutura do poder na USP, que será o tema desse plebiscito, é algo chave para pensarmos nossa universidade.

Desde 1960 se debate uma reforma na Universidade com a intenção de democratizar suas instâncias. Instauraram-se, à época, comissões em diversas unidades, e, em 1968 se tinha um projeto de novo estatuto para a USP, fruto de muitos debates e ampla participação. Esse processo, contudo, foi barrado pela Ditadura e as alterações no estatuto somente aprofundaram o caráter autoritário e centralizador do poder na universidade.

Em 1987 realizou-se, também, o III Congresso Paritário da Universidade de São Paulo, que debateu a questão da reforma estatutária e a possibilidade de se criar um “anteprojeto” de Estatuto. Os apontamentos do Congresso reivindicavam –dentre uma gama de deliberações- a participação ampla dos três setores nos espaços deliberativos da universidade, eleições diretas e autonomia universitária. Na votação no Conselho Universitário, contudo, muitas das propostas foram desconsideradas, inúmeras emendas propostas, o que culminou em uma nova mudança estatutária, mas que preservava e mantinha inabalada a estrutura de poder na USP.

Com isso, manteve-se uma estrutura de poder defasada em relação às experiências e propostas nacionais, desrespeitando a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), que estabelece um limite de 70% para composição dos conselhos por docentes – na USP esse número chega a 90%. Manteve, também, o regime disciplinar do Decreto nº 52.906/72, criado  à época da ditadura. Esse decreto proíbe agremiações de caráter político, religioso, por exemplo, e é utilizado atualmente na expulsão de diversos estudantes.

Entendendo essa realidade na USP, surgiu neste ano o Fórum pela Democratização da USP, que visa debater, estudar e promover ações que acumulem para democratizar a universidade. Durante o primeiro semestre, o Fórum construiu a Campanha pela Comissão da Verdade da USP, entendendo que o resgate do passado é fundamental para consolidar um ambiente democrático.

Assine o abaixo assinado Por Uma Comissão da Verdade da USP em verdadeusp.org!

E a proposta do Rodas para o Estatuto?

Rodas, o atual reitor da USP, propôs que acontecesse uma reforma estatutária; contudo, não indicou a realização sequer de debates nas unidades, não criou espaço e  condições dentro do próprio Conselho Universitário (CO) para que o estatuto e suas alterações fossem analisados com profundidade, não esperou a realização de um  Congresso das três categorias que tirasse propostas, não perguntou a ninguém sobre isso, nem mesmo sobre a necessidade de que o Estatuto fosse reformulado.

A mudança no Estatuto da USP precisa ser fruto de amplos debates, com uma participação intensa dos três setores que formam nossa universidade, questionando que instituição queremos, como queremos que suas decisões sejam tomadas, a que(m) serve o que temos produzido nas salas de aula e fora delas. Por isso, se propõe a realização de uma Estatuinte livre, ampla, autônoma e soberana, que seja um espaço de debate, de construção coletiva e que consiga com a participação de todas e todos, alterar  questões fundamentais da Universidade.

E quem escolhe o Reitor?

Atualmente, a escolha de cargos-chave na Universidade de São Paulo é feita de maneira indireta – as eleições, tanto para diretores de unidade como para reitor, se dão pela votação de representantes das três categorias em Conselhos. Para Diretor de Unidade se vota na respectiva Congregação, e para Reitor, por meio do Conselho Universitário (CO). Para Reitor, a eleição se dá em dois turnos. No primeiro turno, são escolhidos oito nomes pelos membros da Assembleia Universitária, integrada pelo Conselho Universitário, pelos Conselhos Centrais e pelas Congregações das Unidades (nas eleições de 2009, 1925 pessoas estavam aptas para votar); esses oito nomes são  encaminhados para o segundo turno, em que são aptos a votar os membros do Conselho Universitário e dos Conselhos Centrais (em 2009, foram 325 votantes). O segundo  turno elege uma lista tríplice, a qual é enviada ao governador para que ele escolha.

As eleições diretas e paritárias permitiriam o voto individual a todos os interessados, sendo que cada categoria (estudante, funcionário e professor) responderia por um terço da proporção total dos votos. Desta maneira, haveria uma maior participação das categorias estudantil e de servidores. Embora alguns considerem que os professores
devem ter mais poder de decisão por passarem mais tempo na universidade administrando o tripé universitário (ensino, pesquisa e extensão), é necessário relembrar que os
estudantes contribuem para o desenvolvimento da Universidade ao se relacionar com ela sob uma ótica diferente, bem como os servidores, os quais passam tanto tempo quanto os docentes na Universidade – conhecem, portanto, suas deficiências e agregam bastante à discussão para o seu desenvolvimento – mas são, com frequência,  subestimados intelectualmente.

Democratizar para que(m)?

Outro questionamento importante diz respeito à composição da USP e às relações que estabelece com a produção, a circulação e o reconhecimento do conhecimento.  Pensar uma universidade mais democrática passa por pensar na questão do acesso, da permanência e da extensão universitária.

Quando apenas 28% dos estudantes da USP advêm de escola pública, sendo que apenas 15% dos jovens no país estudam o ensino básico na rede particular, percebemos que existe um descompasso entre a composição do sistema educacional nacional e a composição das universidades públicas brasileiras.

Em ampla maioria, quem frequenta nossa universidade é quem possui as melhores condições econômicas, o que torna a USP extremamente antidemocrática, já que não consegue abarcar a amplitude do povo dentro de suas salas de aula. Nesse sentido, a luta pelas cotas raciais e sociais, impulsionada pelo Núcleo de Consciência Negra,  auxilia a luta pela democratização da universidade.

A permanência e continuidade dos estudantes de baixa renda dentro da USP e a ampliação das bolsas e vagas na moradia, bem como o fim do mérito acadêmico como condição para participação em alguns programas sociais, são de extrema urgência. Na divisão orçamentária da universidade, apenas 3% é destinado a políticas de  permanência – aí estão inclusos também o subsídio para os restaurantes universitários e o transporte nos circulares.

A extensão universitária, que é um dos tripés da universidade, junto ao ensino e à pesquisa, também é marginalizada dentro da USP, ou entendida como mera filantropia. A questão da produção do conhecimento e da relação com a comunidade e o próprio conceito de quem é a comunidade universitária é substancial na democratização.

Participe do Plebiscito!

Democracia em Movimento! – Tese ao XI Congresso dos Estudantes da USP

Nós, do Coletivo Universidade em Movimento, escrevemos uma tese ao XI Congresso dos Estudantes da USP com o intuito de contribuir com a discussão que será feita, trazendo colaborações para um projeto de Universidade que seja de fato democrática e popular.

Você pode acessar o arquivo em pdf aqui.

Nota do Coletivo Universidade em Movimento sobre a agressão contra aluno da USP pela PM

Não é de hoje que a Universidade de São Paulo tem problemas. Não é de hoje que sua estrutura é altamente anti-democrática, e nem é de hoje que o aparato policial é utilizado para vigiar os estudantes que participam ativamente dos processos políticos da Universidade.

Porém, o ano de 2011 foi especialmente atribulado: tivemos uma atuação completamente desnecessária da PM contra três estudantes que usavam maconha (20 viaturas para três alunos); a desocupação da reitoria, feita por 400 policiais (incluindo Tropa de Choque, GATE, cavalaria…), que terminou na prisão de 73 estudantes; e a expulsão de 6 estudantes da USP, por “ferirem a moral e os bons costumes”.

Em 2012, Rodas já demonstrou que a dinâmica não será muito diferente. No dia 09 de janeiro, em operação de desocupação da sede do DCE (localizada ao lado do Bandejão Central), mais uma vez foi possível presenciar a ação truculenta da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

A desocupação do espaço do DCE já é, por si só, um ataque, posto que se trata de um espaço estudantil, que deveria ser autônomo. Porém, a situação piora com a presença da Polícia Militar, pois evidencia que não há vontade alguma de diálogo por parte da reitoria.

Um dos estudantes que ocupavam o lugar, Nicolas Menezes Barreto, do curso de Ciências Naturais (EACH), foi agredido pelo sargento André Luiz Ferreira, que chegou a apontar uma arma de fogo para o aluno. O sargento havia questionado se Nicolas era estudante da USP e exigiu sua documentação, ao que o aluno respondeu que bastava sua palavra.

Gostaríamos de enfatizar que, ainda que Nicolas não fosse aluno da USP, nada justifica a agressão policial, sobretudo porque a Universidade é um espaço público, e não deve ser exclusividade daqueles que passaram no vestibular.

Além do mais, vemos nesse caso uma clara demonstração de racismo, pois o estudante abordado (e agredido) foi justamente o único estudante negro presente. Não foi necessário que os brancos comprovassem seu vínculo com a Universidade. O negro, porém, é “bandido até que se prove o contrário”.

O ocorrido foi registrado em vídeo (parte 1 e parte 2), e ilustra bem o papel que cumpre a Polícia Militar no campus: não para garantir a nossa segurança, mas para garantir a manutenção de um projeto de Universidade que só serve aos interesses da reitoria e de uma elite por ela representada.

Nós, do coletivo Universidade em Movimento, nos colocamos veementemente contra a agressão que ocorreu, bem como todas as arbitrariedades cometidas pela reitoria e pela PM, dentro e fora da USP. Estaremos lado a lado com todas e todos que lutam por uma Universidade pública, gratuita, inclusiva e de qualidade, que atenda às demandas da população, e que seja um espaço que preze pelo livre pensar.

Lutar não é crime!

Malufinho, a pesquisa do Datafolha e a Democracia

Por Antônio David

Não é de hoje que a turma da direita procura desesperadamente os holofotes e microfones da imprensa para se autoproclamar os representantes da “maioria”, os que vieram para salvar os estudantes contra a “esquerda radical” que, segundo eles, toma conta do movimento estudantil da USP.

No dia seguinte mesmo da ocupação da Administração da FFLCH, alguns estudantes de direita postaram-se em frente do prédio ocupado, procurando as câmaras de TV para fazer o discurso que já conhecemos: que este movimento estudantil é uma minoria, e que eles são os verdadeiros porta-vozes da “maioria”.

Esqueceram-se os colegas de dizer que na última eleição para o DCE da USP, eles, porta-vozes da “maioria”, tiveram apenas 5% dos votos, num universo de mais de 8 mil votos. Onde estava a “maioria”, que não votou neles? Que eu saiba, a “maioria” não tem porta-vozes oficiais e não deu procuração a ninguém pra que fale em nome dela.

Seu principal líder é Rodrigo Souza Neves, estudante de História até ano passado e agora estudante de Gestão de Políticas Públicas, amplamente conhecido como “Malufinho”. O motivo? A foto, no final desse artigo. Se falo dele, é porque ele é de fato o líder, articulador, porta-voz e figura pública do grupo. A crítica não é personalista; o grupo é que parece ser. Leia o resto deste post

Estamos em GREVE!

Mais de 3000 estudantes da USP realizaram uma assembleia geral no dia 08/11 às 19:00 no prédio de História e Geografia do campus Butantã com a pauta Tropa de choque no campus e prisão de estudantes.

A assembleia deliberou os seguintes encaminhamentos: Leia o resto deste post

Vejam como a imprensa MA-NI-PU-LA!

Saiu na imprensa que “crimes na USP caem 92% após o convênio“.

No entanto, esta variação não está fora da variação anual na taxa de ocorrências dentro do campus.

Portanto, não é verdade que a presença ostensiva da PM tenha implicado numa redução dos crimes no campus.

A única coisa que mudou desde que o convênio foi assinado é que agora se tornaram recorrentes os “enquadros”. (Será o Reitor e seus puxa-sacos levaram algum?)

Você Sabia …..

  • Que a USP tem 113.774 pessoas (servidores docentes + servidores não-docentes + servidores pesquisadores + discentes de graduação + discentes de pós-graduação + discentes de pós-doutorado + outros discentes)?
  • Que na USP existe uma Casta, chamada “Professor Titular” (ms-6) que é vitalício no cargo?
  • Que os “titulares” são quem define quem serão os próximos a entrar na casta?
  • Que os “titulares” ocupam mais de 70% dos cargos de decisão nos conselhos e órgãos colegiados?
  • Que são os “titulares” que ocupam as cadeiras de Diretoria, Reitoria, Pró-Reitorias, Chefes de Departamento e afins?
  • Que os titulares são 18,23% dos docentes da universidade?
  • Que os titulares são 0,94% das pessoas da universidade?

USP, um local no qual democracia só se vê em livros.

Fonte: https://sistemas.usp.br/anuario/info_demo.htm

quadros_universidade

quadros_universidade

Posição do coletivo Universidade em Movimento sobre a ação da Tropa de Choque e a ocupação do campus pela Polícia Militar

1- As imagens veiculadas em todos os noticiários falam por si. Hoje o tirano João Grandino Rodas deu provas definitivas de que é o mais autoritário, o mais covarde e o mais medíocre dos Reitores que a USP já teve. Provou que de fato merece o título (inédito) que lhe foi dado pela Congregação da Faculdade de Direito: “Persona non grata”. Merece que todas as Congregações lhe deem esse título.

2- A ação truculenta da PM não teve como objetivo apenas desocupar a Reitoria. Objetivou militarizar o campus; mais do que isso, objetivou subjugar as consciências de quem estuda e trabalha na USP e de toda sociedade. No fundo é esse o projeto deste Reitor: difundir a ideia de que ele manda, e o restante tem de obedecer; de que não existem conflitos na USP, mas apenas “distúrbios provocados por uma minoria”; e de que a “desordem” deve ser tratada como caso de polícia, na base dos gritos, das bombas de efeito moral, das balas de borracha, do cassetete, da perseguição e da prisão.

3- Desde que a PM passou a ocupar o campus de forma ostensiva, a única mudança que houve foi que os “enquadros” e a intimidação física e moral passaram a ser recorrentes – são vários os relatos de estudantes revistados na saída da biblioteca da FFLCH, por exemplo. Não houve melhoras na segurança para os usuários do campus. Como sempre, a mídia manipula a informação. (Seria surpreendente se não o fizesse).  A ação da PM nesse dia 08.11.2011 – não apenas na Reitoria, mas também no Crusp, acordando estudantes com bombas de efeito moral e aos gritos -, apenas comprova o total despreparo da PM, e sua vocação para o fascismo. Como o próprio brasão de armas da PM o comprova (Ver no site da PM: “corporação” e “brasão de armas”). A polícia não existe para garantir a segurança, mas para reprimir. Por que no caso da USP seria diferente? As políticas de prevenção contra o crime ainda não foram tomadas: ainda há cantos escuros pela USP e a guarda universitária continua mal treinada.

4- Sugerimos a todos os diretores e diretoras de unidade e representantes de Congregação que sigam o exemplo do professor Magalhães, diretor da Faculdade de Direito: recusem-se a pisar no Conselho Universitário enquanto esse medíocre for Reitor.

5- A ocupação da Reitoria foi um movimento pacífico, apresentado pela mídia de forma totalmente distorcida para a sociedade, e que reivindicava algo que deveria fazer parte da normalidade: participação nas decisões. Se a USP fosse uma universidade democrática, se o Reitor fosse eleito com o voto direto da comunidade universitária, se no Conselho Universitário houvesse uma representação adequada de estudantes, funcionários e professores, não haveria ocupação. As questões seriam discutidas e encaminhadas normalmente, no diálogo. Ocorre que a USP é um feudo, onde um pequeno círculo de poder manda e desmanda. O Reitor nomeia a maioria dos eleitores do Reitor que o sucederá. E assim um pequeno grupo, um círculo de poder, ligado ao Governo do Estado, perpetua-se como proprietário da USP.

6- Mas a USP não é desse grupo, nem de nenhum outro. A USP deve ser do povo. Muitos dos que aqui estudaram, trabalharam, pesquisaram e viveram enfrentaram a polícia, foram perseguidos, caluniados, presos, alguns torturados e assassinados. Seguiremos o seu exemplo. Não nos curvaremos diante de nenhuma polícia. E as futuras gerações não se curvarão. Lutaremos sempre, por democracia na universidade, e para que a universidade atenda de fato aos interesses não de um grupo e de um partido, mas da sociedade, da grande maioria da população.

7- Propomos que o movimento estudantil concentre toda a sua força e energia para falar para a maioria dos estudantes a verdade. É preciso buscar o apoio ativo e declarado da maioria. A força dos nossos inimigos está no dinheiro, na mídia e no aparato de Estado (inclusive a PM). Nossa força está no número de pessoas que conseguimos agregar em torno de nossas causas. Mais do que nunca, precisamos deixar as vaidades de lado, e ter coesão e unidade. E isso exige que a autoconstrução fique de fora.

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