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Posição do coletivo Universidade em Movimento sobre a ocupação da Reitoria

1- A ocupação da Reitoria da USP deve ser vista e julgada dentro de seu contexto. E o contexto é o de uma universidade onde não existe nenhuma democracia. A USP é a universidade mais antidemocrática do Brasil. Se os estudantes tivessem voz no Conselho Universitário, se essa instância fosse paritária, se o Reitor fosse eleito pelo voto direto da comunidade universitária, certamente não haveria ocupações, greves, paralisações, protestos. Errando ou acertando, o fato é que os estudantes lutam porque as decisões na USP são tomadas por um pequeno circulo de poder, que se comporta como se fosse proprietário da USP.

2- O atual Reitor, João Grandino Rodas, não foi eleito por ninguém. Sua legitimidade é tão nula que mesmo na pseudo-eleição para Reitor, em que 1% dos professores da USP vota, ele ficou em segundo lugar. Rodas é o Reitor de um voto só, imposto pelo Governador do Estado. E sua gestão é a mais autoritária dos últimos anos, de fazer inveja aos Reitores da Ditadura Militar. A verdade é que Rodas administra a USP como se estivesse administrando a sua fazenda. E a assinatura do convênio com a Polícia Militar foi apenas mais uma de muitas iniciativas que ele tomou de forma absolutamente unilateral e arbitrária. A ocupação da Reitoria é uma resposta de uma parcela do movimento estudantil a tanto abuso e a tanta arbitrariedade.

3- A presença da Polícia Militar no campus não resolve o problema da segurança dos usuários do campus. No dia em que o estudante Felipe foi assassinado, na FEA, havia uma ronda na USP. Há poucos dias, já com a presença ostensiva da PM no campus, o CA da ECA foi assaltado. O problema da segurança exige medidas que a Reitoria não enfrentou até agora, e sobre as quais sequer se pronunciou, como a total escuridão do campus, a enorme carência de pontos de ônibus e circulares, e a situação precária da Guarda Universitária. Desde que a PM foi autorizada a atuar de forma ostensiva no campus, a única coisa que mudou foram os constrangimentos e os abusos. Tornaram-se recorrentes os “enquadros”, sobretudo de trabalhadores terceirizados que moram na favela São Remo, mas também de estudantes e professores. Na véspera da revolta que houve no estacionamento da FFLCH, a PM fez uma “operação saturação”: constranger, abusar, humilhar, “impor a autoridade”. A revolta não foi pela defesa do direito de fumar maconha; foi na verdade uma explosão contra essa prática fascista. A reivindicação da ocupação é, portanto, mais do que justa – inclusive do ponto de vista da segurança no campus.

4- Apoiamos todas as formas de lutas que perseguem causas justas, e reconhecemos a ocupação como um instrumento legítimo de luta levado adiante por uma parcela do movimento estudantil. Sabemos que existem grupos sectários e inconsequentes que tentam instrumentalizar e manipular a ocupação para a sua autoconstrução, alimentando o sectarismo e a beligerância no interior do movimento. Mas sabemos também que, apesar de táticas e métodos que nem sempre contribuem para que obtenhamos apoio entre os estudantes e na sociedade, a maioria dos estudantes que estão na ocupação estão lá por acreditarem na justeza da causa pela qual lutam. São companheiros e companheiras que lutam de peito aberto, pela universidade pública. Justa é a sua luta. Injustos são os que os agridem.

5- O movimento estudantil encontra-se cindido. A assembléia que deliberou a desocupação da administração da FFLCH, e da qual se seguiu a ocupação da Reitoria, é um retrato disso. A cisão é fruto de um vazio político deixado sobretudo pelas entidades estudantis, que precisam fazer uma autocrítica e voltar a cumprir o papel de organizadoras do movimento, ao invés de instrumento de autoconstrução e propaganda dos grupos que as dirigem. Enquanto estiver cindido, o movimento acumulará derrotas. A força de nossos inimigos está no dinheiro, na mídia e no Estado; nossa força está no no número de pessoas que agregamos em torno das causas pelas quais lutamos, e em nossa coesão e unidade. O movimento estudantil precisa voltar a perseguir o APOIO DA MAIORIA dos estudantes para as causas pelas quais luta, caso contrário só acumulará derrotas. Ao mesmo tempo, o movimento precisa com urgência sair da lógica fratricida do denuncismo e da beligerância – o que não significa deixar de fazer a crítica e a autocrítica quando estas devem ser feitas -, e voltar a ter coesão e unidade. Mas para isso muitos dos grupos que atuam no movimento estudantil precisam deixar a vaidade em casa.

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