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O Reitor, a PM e a fascistização oculta da sociedade

Como comprova a pesquisa do Núcleo de Estudos da Violência da USP, a abordagem policial “reproduz um padrão arcaico e discriminatório de classificação dos indivíduos”

 17/11/2011

Publicado em Brasil de Fato

Luisa Paiva e Lira Alli*

A Universidade de São Paulo é conhecida internacionalmente pela excelência acadêmica. Todos os anos, rankings internacionais situam a USP na lista das melhores do mundo. Se houvesse, no entanto, um ranking que apontasse o caráter antirepublicano e antidemocrático das universidades brasileiras, a USP certamente ficaria em primeiro lugar.

A USP é a universidade mais antidemocrática do Brasil. Antidemocrática porque é dirigida por um pequeno círculo de poder, que se perpetua nas instâncias de decisão na base da troca de favores. Antidemocrática porque restringe o acesso a milhares de jovens que vêm da escola pública, aptos a estudar na USP tanto quanto os jovens de classe média que nela estudam. Antidemocrática porque, salvo exceções, a pesquisa atende demandas privadas, alheias às reais necessidades da população. Antidemocrática porque nela o ensino é alienante e despolitizador. Leia o resto deste post

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Posição do coletivo Universidade em Movimento sobre a ação da Tropa de Choque e a ocupação do campus pela Polícia Militar

1- As imagens veiculadas em todos os noticiários falam por si. Hoje o tirano João Grandino Rodas deu provas definitivas de que é o mais autoritário, o mais covarde e o mais medíocre dos Reitores que a USP já teve. Provou que de fato merece o título (inédito) que lhe foi dado pela Congregação da Faculdade de Direito: “Persona non grata”. Merece que todas as Congregações lhe deem esse título.

2- A ação truculenta da PM não teve como objetivo apenas desocupar a Reitoria. Objetivou militarizar o campus; mais do que isso, objetivou subjugar as consciências de quem estuda e trabalha na USP e de toda sociedade. No fundo é esse o projeto deste Reitor: difundir a ideia de que ele manda, e o restante tem de obedecer; de que não existem conflitos na USP, mas apenas “distúrbios provocados por uma minoria”; e de que a “desordem” deve ser tratada como caso de polícia, na base dos gritos, das bombas de efeito moral, das balas de borracha, do cassetete, da perseguição e da prisão.

3- Desde que a PM passou a ocupar o campus de forma ostensiva, a única mudança que houve foi que os “enquadros” e a intimidação física e moral passaram a ser recorrentes – são vários os relatos de estudantes revistados na saída da biblioteca da FFLCH, por exemplo. Não houve melhoras na segurança para os usuários do campus. Como sempre, a mídia manipula a informação. (Seria surpreendente se não o fizesse).  A ação da PM nesse dia 08.11.2011 – não apenas na Reitoria, mas também no Crusp, acordando estudantes com bombas de efeito moral e aos gritos -, apenas comprova o total despreparo da PM, e sua vocação para o fascismo. Como o próprio brasão de armas da PM o comprova (Ver no site da PM: “corporação” e “brasão de armas”). A polícia não existe para garantir a segurança, mas para reprimir. Por que no caso da USP seria diferente? As políticas de prevenção contra o crime ainda não foram tomadas: ainda há cantos escuros pela USP e a guarda universitária continua mal treinada.

4- Sugerimos a todos os diretores e diretoras de unidade e representantes de Congregação que sigam o exemplo do professor Magalhães, diretor da Faculdade de Direito: recusem-se a pisar no Conselho Universitário enquanto esse medíocre for Reitor.

5- A ocupação da Reitoria foi um movimento pacífico, apresentado pela mídia de forma totalmente distorcida para a sociedade, e que reivindicava algo que deveria fazer parte da normalidade: participação nas decisões. Se a USP fosse uma universidade democrática, se o Reitor fosse eleito com o voto direto da comunidade universitária, se no Conselho Universitário houvesse uma representação adequada de estudantes, funcionários e professores, não haveria ocupação. As questões seriam discutidas e encaminhadas normalmente, no diálogo. Ocorre que a USP é um feudo, onde um pequeno círculo de poder manda e desmanda. O Reitor nomeia a maioria dos eleitores do Reitor que o sucederá. E assim um pequeno grupo, um círculo de poder, ligado ao Governo do Estado, perpetua-se como proprietário da USP.

6- Mas a USP não é desse grupo, nem de nenhum outro. A USP deve ser do povo. Muitos dos que aqui estudaram, trabalharam, pesquisaram e viveram enfrentaram a polícia, foram perseguidos, caluniados, presos, alguns torturados e assassinados. Seguiremos o seu exemplo. Não nos curvaremos diante de nenhuma polícia. E as futuras gerações não se curvarão. Lutaremos sempre, por democracia na universidade, e para que a universidade atenda de fato aos interesses não de um grupo e de um partido, mas da sociedade, da grande maioria da população.

7- Propomos que o movimento estudantil concentre toda a sua força e energia para falar para a maioria dos estudantes a verdade. É preciso buscar o apoio ativo e declarado da maioria. A força dos nossos inimigos está no dinheiro, na mídia e no aparato de Estado (inclusive a PM). Nossa força está no número de pessoas que conseguimos agregar em torno de nossas causas. Mais do que nunca, precisamos deixar as vaidades de lado, e ter coesão e unidade. E isso exige que a autoconstrução fique de fora.

Posição do coletivo Universidade em Movimento sobre a ocupação da Reitoria

1- A ocupação da Reitoria da USP deve ser vista e julgada dentro de seu contexto. E o contexto é o de uma universidade onde não existe nenhuma democracia. A USP é a universidade mais antidemocrática do Brasil. Se os estudantes tivessem voz no Conselho Universitário, se essa instância fosse paritária, se o Reitor fosse eleito pelo voto direto da comunidade universitária, certamente não haveria ocupações, greves, paralisações, protestos. Errando ou acertando, o fato é que os estudantes lutam porque as decisões na USP são tomadas por um pequeno circulo de poder, que se comporta como se fosse proprietário da USP.

2- O atual Reitor, João Grandino Rodas, não foi eleito por ninguém. Sua legitimidade é tão nula que mesmo na pseudo-eleição para Reitor, em que 1% dos professores da USP vota, ele ficou em segundo lugar. Rodas é o Reitor de um voto só, imposto pelo Governador do Estado. E sua gestão é a mais autoritária dos últimos anos, de fazer inveja aos Reitores da Ditadura Militar. A verdade é que Rodas administra a USP como se estivesse administrando a sua fazenda. E a assinatura do convênio com a Polícia Militar foi apenas mais uma de muitas iniciativas que ele tomou de forma absolutamente unilateral e arbitrária. A ocupação da Reitoria é uma resposta de uma parcela do movimento estudantil a tanto abuso e a tanta arbitrariedade.

3- A presença da Polícia Militar no campus não resolve o problema da segurança dos usuários do campus. No dia em que o estudante Felipe foi assassinado, na FEA, havia uma ronda na USP. Há poucos dias, já com a presença ostensiva da PM no campus, o CA da ECA foi assaltado. O problema da segurança exige medidas que a Reitoria não enfrentou até agora, e sobre as quais sequer se pronunciou, como a total escuridão do campus, a enorme carência de pontos de ônibus e circulares, e a situação precária da Guarda Universitária. Desde que a PM foi autorizada a atuar de forma ostensiva no campus, a única coisa que mudou foram os constrangimentos e os abusos. Tornaram-se recorrentes os “enquadros”, sobretudo de trabalhadores terceirizados que moram na favela São Remo, mas também de estudantes e professores. Na véspera da revolta que houve no estacionamento da FFLCH, a PM fez uma “operação saturação”: constranger, abusar, humilhar, “impor a autoridade”. A revolta não foi pela defesa do direito de fumar maconha; foi na verdade uma explosão contra essa prática fascista. A reivindicação da ocupação é, portanto, mais do que justa – inclusive do ponto de vista da segurança no campus.

4- Apoiamos todas as formas de lutas que perseguem causas justas, e reconhecemos a ocupação como um instrumento legítimo de luta levado adiante por uma parcela do movimento estudantil. Sabemos que existem grupos sectários e inconsequentes que tentam instrumentalizar e manipular a ocupação para a sua autoconstrução, alimentando o sectarismo e a beligerância no interior do movimento. Mas sabemos também que, apesar de táticas e métodos que nem sempre contribuem para que obtenhamos apoio entre os estudantes e na sociedade, a maioria dos estudantes que estão na ocupação estão lá por acreditarem na justeza da causa pela qual lutam. São companheiros e companheiras que lutam de peito aberto, pela universidade pública. Justa é a sua luta. Injustos são os que os agridem.

5- O movimento estudantil encontra-se cindido. A assembléia que deliberou a desocupação da administração da FFLCH, e da qual se seguiu a ocupação da Reitoria, é um retrato disso. A cisão é fruto de um vazio político deixado sobretudo pelas entidades estudantis, que precisam fazer uma autocrítica e voltar a cumprir o papel de organizadoras do movimento, ao invés de instrumento de autoconstrução e propaganda dos grupos que as dirigem. Enquanto estiver cindido, o movimento acumulará derrotas. A força de nossos inimigos está no dinheiro, na mídia e no Estado; nossa força está no no número de pessoas que agregamos em torno das causas pelas quais lutamos, e em nossa coesão e unidade. O movimento estudantil precisa voltar a perseguir o APOIO DA MAIORIA dos estudantes para as causas pelas quais luta, caso contrário só acumulará derrotas. Ao mesmo tempo, o movimento precisa com urgência sair da lógica fratricida do denuncismo e da beligerância – o que não significa deixar de fazer a crítica e a autocrítica quando estas devem ser feitas -, e voltar a ter coesão e unidade. Mas para isso muitos dos grupos que atuam no movimento estudantil precisam deixar a vaidade em casa.

Resposta ao “chamado à unidade”

POR QUE A DIREITA SE FORTALECE NO MOVIMENTO ESTUDANTIL DA USP?

PORQUE EXISTE UM VAZIO POLÍTICO DEIXADO PELO DCE.

Recebemos com respeito o chamado feito pelos coletivos JuntosBarricadas, Domínio Público e A USP que queremos para uma “chapa de unidade” ao DCE da USP. E é com respeito que respondemos aos companheiros e companheiras, e ao conjunto do movimento estudantil da USP, nossa opinião. Esperamos que os companheiros/as encarem essa nota não como uma agressão, mas como uma crítica. Nosso objetivo é colocar na mesa nossas críticas de forma fraterna, no debate de ideias. Há muito é necessário haver no interior do ME da USP esse debate, que os acontecimentos recentes tornaram inadiáveis. Mais do que “chamados”, o momento exige duras (mas fraternas) críticas e autocríticas. É com esse espírito que escrevemos essa nota. Leia o resto deste post

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