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Textos produzidos por integrantes e apoiadores do Universidade em Movimento

Lições do plebiscito da Poli

por Antônio David

No dia 30 de novembro, foi divulgado o resultado de um plebiscito organizado pelo Grêmio da Poli (G-Poli) junto aos estudantes da Escola Politécnica da USP. Considero muito importante que se faça uma leitura atenta  e que se tire as devidas lições dele.

Primeira lição: A desinformação reina na Poli

Examinando as respostas, nota-se que a maioria dos estudantes tem opinião formada sobre os assuntos relativos à greve e às reinvindicações do movimento estudantil. No entanto, um dos dados que mais chama a atenção é o elevadíssimo percentual de estudantes que declararam “não possuir opinião formada” justamente sobre as questões que talvez sejam as mais relevantes: aquelas que dizem respeito à universidade (questões 4, 5 e 6 íntegra, AQUI)

Vejamos: 26% não possuem opinião formada se deveria haver um aumento da representação discente no Conselho Universitário – presumidamente, não possuem opinião formada sobre o quão democrático ou antidemocrático é o Conselho Universitário; 19% não possuem opinião formada sobre a maneira como o Reitor é eleito; 18% não possuem opinião formada sobre a gestão Rodas.

Parece pouco, mas não é. Sobretudo quando se considera que os estudantes que votaram são aqueles que de uma forma ou de outra têm uma maior pré-disposição a opinar, a tomar parte, a participar. Ora, se entre estes a desinformação é tão grande, muito maior do que em pesquisas de opinião convencionais, é de se supor que entre os estudantes que não votaram (quase 90% dos estudantes da Poli) a desinformação é ainda maior.

Como não é natural que haja tamanha desinformação a respeito de questões tão importantes para a vida universitária, a única conclusão que se pode tirar é que, na Poli, o acesso às informações é bastante restrito. Dessa conclusão, pode-se extrair outra: as entidades estudantis da Poli não têm cumprido a função de informar os estudantes e fomentar o debate sobre questões fundamentais concernentes à universidade.

Segunda lição: A maioria dos estudantes da Poli não é de direita

O resultado do plebiscito mostra que a maioria dos estudantes que votou é neste momento a favor da PM no campus, repudia as ocupações da administração da FFLCH e da Reitoria e está contra a greve. Isso é fato. No entanto, 48% dos estudantes que votaram disseram discordar da forma como o reitor é eleito (e 19% dizem não ter opinião formada); 40% disseram discordar da gestão Rodas (e 18% não têm opinião formada); 66% declararam que a mídia “gerou um ambiente pobre, em que uma opinião específica foi difundida”.

Portanto, o plebiscito mostrou que, neste momento, entre os estudantes da Poli que votaram, a maioria discorda dos métodos do movimento, mas concorda com parte das reivindicações do movimento – vale dizer, com a parte principal, uma vez que o problema de fundo de todas as demais reivindicações é a estrutura de poder da USP, inclusive o convênio entre a USP e a PM, pois este convênio foi assinado sem que a comunidade universitária pudesse opinar e tomar parte na decisão.

Isso mostra claramente que, ao contrário do que muitos pensam, o estudante da Poli não possui o esteriótipo que normalmente lhe é atribuído. E, ao mesmo tempo, que o grupo que proclama para si o rótulo de “maioria da Poli” talvez não represente a maioria.

Penso que as perguntas 4 e 6 são as que apontam, com alguma precisão, quem esse grupo de fato representa: aproximadamente 10%, ou seja, aqueles que aprovam a gestão Rodas e para quem está bom o número de cadeiras para a representação discente no CO. Mesmo entre estes 10%, não duvido que haja uma parte que possa ser convencida do contrário caso seja melhor informada sobre a estrutura de poder na USP. Uma coisa é certa: os membros da chapa Reação e do “Partido Polinova” (atual gestão do G-Poli) fazem parte deste grupo, minoritário.

Quanto à maioria, acredito que a questão 9 é bastante sintomática de quem é e o que pensa: 66% declaram acreditar na “viabilidade de um perfil mais humanizado para a PM como forma de modelo para a sociedade”. Ou seja, ao contrário de certas pessoas, a maioria não é adepta do malufismo, não é adepta da linha de pensamento fascista do “vou por a ROTA na rua”.

Nestes termos, a questão que devemos fazer é: se a maioria cultiva ilusões na viabilidade de uma PM humanizada – e por isso não é contra a presença da PM no campus – o movimento estudantil não tem a capacidade de convencer a maioria de que a PM não é a solução para o problema da segurança, mas é parte do problema da insegurança? Acredito que tem. Argumentos não faltarão.

Nas respostas deste plebiscito, a maioria oscila entre posições a favor e contra o movimento, o que já é em si mesmo bastante emblemático. De qualquer forma, a verdade é que a maioria não é de direita, não é reacionária. Estes são uma minoria. A maioria pode sim ser convencida pela direita e reproduzir um discurso reacionário ou até mesmo fascista, mas pode igualmente ser convencida por aqueles que têm ideias progressistas e uma prática democrática. E aqui fica uma lição para o movimento: a maioria só é convencida e apoia o movimento na medida em que o movimento se preocupa em conquistar o apoio da maioria e age nessa perspectiva – o que pressupõe não fazer nada que jogue a maioria contra si.

Terceira lição: A imensa maioria dos estudantes da Poli aprova manifestações políticas – coisa que o grupo que está à frente do G-Poli (“Partido Polinova”) e a chapa Reação não só não fazem, como abominam, detestam e ridicularizam

Um dado é especialmente curioso, sobretudo quando se leva em conta todo o esforço de apropriação dos resultados do plebiscito pela direita. Se a maioria dos estudantes da Poli neste momento discorda dos instrumentos de luta tradicionais do movimento (ocupação e greve), isso não quer dizer que a maioria seja contra a manifestação política: 87% disseram concordar com a “utilização de outros meios de manifestação que não greve e ocupação, tais como: passeatas pacíficas, manifestações artísticas, abaixo assinado, etc”.

Ora, em sendo assim, cabe o questionamento: o “Partido Polinova”, grupo que está há quatro anos à frente da gestão do G-Poli e que se considera tão representativo, acaso organizou ou participou de alguma manifestação política nestes quatro anos? Justiça seja feita – para não dizer que não organizou nem participou de nada –, neste longo período o G-Poli participou de uma única manifestação política: o “movimento fora Sarney” (sabe-se lá por qual motivação, se pela justa indignação frente à corrupção, ou se por alguma motivação político-partidária; de qualquer forma, vale destacar que os estudantes não foram consultados quanto a essa participação).

A mesma indagação deve ser dirigida para a chapa Reação, já que essa chapa reiteradamente se autoproclama a verdadeira porta-voz dos estudantes da Poli nas eleições para o DCE da USP: acaso a chapa Reação faria alguma manifestação política se estivesse à frente do DCE? É evidente que não. Não faria porque não faz. A única manifestação política que a chapa Reação considera, além da manifestação virtual via twitter e facebook contra o movimento estudantil, é o discurso do púlpito do Conselho Universtiário para apoiar o Reitor e sua gestão – Reitor este que, diga-se de passagem, a maioria dos estudantes que votou no plebiscito e que declarou ter opinião formada não aprova (para o desgosto da chapa Reação, do “Partido Polinova” e do diretor da Escola Politécnica).

Quarta lição:  Greve que fez com que a maioria que votou no plebiscito da Poli se convencesse da necessidade de democratizar a estrutura de poder da universidade

Há ainda um outro elemento escondido por trás dos números, que não se percebe à primeira vista, mas que é de suma importância perceber.

Se esse plebiscito tivesse ocorrido há dois meses atrás, os percentuais acima mencionados, acerca da eleição para Reitor e sobre a gestão Rodas, certamente seriam menores. Isso significa que, com todos os erros e vacilos que o movimento cometeu, ainda assim o movimento conseguiu mostrar a relevância, senão de tudo, pelo menos de uma parte importante das suas reivindicações. Resultado: mesmo aqueles que repudiam as ocupações da administração da FFLCH e da Reitoria e que estão contra a greve foram convencidos de uma parte das reivindicações do movimento.

Quinta lição: O plebiscito da Poli revelou aquilo que seus organizadores esforçaram-se por mascarar quando organizaram o plebiscito: sua opção política em incentivar e fomentar a desfinformação e a apatia

O “Partido Polinova” é aliado da chapa Reação para o que der e vier. O que está em jogo, para estes grupos, com este plebiscito? Todos sabemos que estes grupos aproveitam-se dos vacilos e erros do movimento estudantil – que existem – para atacar o movimento e suas reivindicações, buscando com isso deslegitimar tudo o que o movimento faz e tudo o que o movimento reivindica – mesmo as coisas acertadas. Mas por quê?

Não nos enganemos ao achar que o objetivo destes grupos é pura e simplesmente aferir a opinião dos estudantes. Estes grupos possuem interesses políticos e ideológicos muito claros e definidos. Seu objetivo definitivamente não é “representar” os estudantes. Há um objetivo maior por trás do plebiscito. O que está em jogo para ambos os grupos é, sobretudo, afirmar e difundir uma proposta para o movimento estudantil. Vejamos isso mais de perto.

Estamos todos carecas de ouvir o discurso em uníssino do “Partido Polinova” e da chapa Reação: plebiscito, plebiscito, plebiscito. Estes grupos pintam o plebiscito como se o plebiscito fosse a coqueluche da democracia, a grande solução para todos os problemas do movimento estudantil. “A assembleia não é representativa; representativo é o plebiscito”, insistem em dizer. E continuam dizendo isso, mesmo sabendo que votaram no plebiscito 12% dos estudantes da Poli, contando graduação e pós-graduação.

O que este plebiscito monstrou? Neste momento, a maioria dos estudantes da Poli que votou no plebiscito está contra uma parte das reivindicações do movimento. Esse é o dado que a chapa Reação está divulgando a torto e a direito. No entanto, o plebiscito mostrou algo muito mais relevante, e que o “Partido Polinova” e a chapa Reação cuidadosamente escondem: que a desinformação na Poli é enorme, que a maioria dos estudantes da Poli que votou no plebiscito é crítica em relação à maneira como o Reitor é eleito e à gestão Rodas e que anseia por manifestar-se politicamente.

Ora, em terra arrasada pela total desinformação e pela total apatia, o ponto é que o plebiscito não só não informa ninguém e não supre a necessidade que os estudantes da Poli legitimamente sentem de informar-se e manifestar-se, como é utilizado de má-fé exatamente para legitimar uma opção política de não informar e não organizar manifestação alguma.

Explicou-me: em si mesmo, o plebiscito é um instrumento que pode tanto ser bem utilizado como ser mal utilizado. Não preciso dizer o quão importantes são o plebiscito, o referendo e a iniciativa popular em regimes democráticos. Entretanto, a democracia pressupõe que estes instrumentos venham acompanhados do acesso à informação, da prática cotidiana do debate e do exercício da manifestação política, e não que aqueles tomem o lugar destes, como que para justificar: “Pra que debate? Pra que manifestação? Temos o plebiscito!”. Ora, não é essa aberração o que tem acontecido na Poli?

Note-se: se o plebiscito tivesse sido utilizado após um longo e qualificado processo de debates, em que os estudantes tivessem o devido acesso à informação, e se viesse acompanhado do exercício da manifestação política, então seria uma coisa. Porém, no caso deste plebiscito a coisa é inversa: é para que não haja nenhum debate e nenhuma manifestação política que o plebiscito é evocado e utilizado.

Essa é a proposta destes grupos para o movimento estudantil, e é isso o que está em jogo com o plebiscito: fomentar a desinformação e a apatia para, de um lado, acabar com o movimento estudantil e, com isso, acabar com toda e qualquer manifestação política e com toda e qualquer opinião crítica à estrutura de poder autocrática da USP, e, de outro, fazer das entidades estudantis meras agências promotoras de eventos (de preferência, eventos que proporcionem gordos lucros para particulares) e palco para “líderes estudantis” que serão candidatos a qualquer coisa nas próximas eleições pelos partidos de direita – pois, não nos enganemos, é isso o que está em jogo para certos “líderes” da chapa Reação, ávidos dos holofotes e microfones da imprensa.

Todavia, para a infelicidade do “Partido Polinova” e de seus aliados da chapa Reação, o tiro saiu pela culatra. Ao fim e ao cabo, e ironicamente, muito mais do que essa ou aquela opinião de 12% dos estudantes da Poli, o plebiscito revelou aquilo que seus organizadores esforçaram-se por mascarar quando tomaram a iniciativa de propor o plebiscito: sua opção política em incentivar e fomentar a desfinformação e a apatia.

O resultado completo do plebiscito, inclusive as perguntas feitas, pode ser lido AQUI .

Antônio David é mestrando em Filosofia, FFLCH/USP.

http://www.viomundo.com.br/politica/antonio-david-a-maioria-dos-estudantes-da-poli-nao-e-de-direita-e-aprova-manifestacoes.html

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Os muros da universidade e os muros do movimento estudantil

Lira Alli – texto originalmente publicado no JECA – Jornal dos Estudantes de Comunicações e Artes

Dia 10 de novembro, houve um grande ato no centro de São Paulo, seguido de uma assembleia geral dos estudantes da USP. Este texto parte de uma reflexão sobre esses acontecimentos.

Os muros da universidade (o ato)

Nos encontramos no Largo São Francisco, em frente à Faculdade de Direito da USP, do lado da Praça da Sé. Milhares de pessoas participaram (4, 5 ou 6 mil, é difícil de saber!). Pelo centro de São Paulo por mais de duas horas, dialogamos com a população, com música, poesia, intervenções. Dos prédios do centro, os trabalhadores jogavam papel picado sobre a marcha. Na Avenida São João, passamos em frente às ocupações da Frente de Luta por Moradia (FLM). Saudamos e fomos saudados, nos identificávamos: nós das ruas, eles e elas das janelas, e cantamos juntos: “moradia, educação, a nossa luta é contra a repressão!”. Essa experiência, além de inesquecível, me parece propor coisas importantes para o movimento estudantil.

Em primeiro lugar, o ato provou que, a despeito de todas as divergências, nós podemos ter unidade, e que a nossa força depende da nossa unidade. Participaram ativamente do ato além dos milhares de estudantes independentes, companheiros de todos os grupos (com exceção, claro, dos reacionários) da imensa diversidade do movimento estudantil. Todos engrossaram a marcha, cantaram palavras de ordem, levavam cartazes com as bandeiras do movimento. Todos participaram do ato e estão participando da greve. O ato desmentiu de forma contundente muito do que temos ouvido e lido no cotidiano do movimento estudantil: que somos uma minoria, que o movimento estudantil é somente um local de disputa entre grupos partidários. O ato provou que um grupo não dirige sozinho o movimento e que, na luta concreta, é o coletivo que dirige o movimento. Provou que, do ponto de vista da nossa luta prioritária, a unidade é uma necessidade. Enfim, provou que, entre nós pode haver adversários, mas não “inimigos”, e que a caracterização de “inimigo” entre nós não serve a ninguém.

Em segundo lugar, o ato provou algo que não raras vezes o movimento tem ignorado: se a força da Reitoria e do Governo do Estado está no dinheiro, na mídia e no aparato policial e judiciário, nossa força está no número de pessoas que agregamos em nossa luta. Se o ato tivesse 200 estudantes, não teria a força que teve. Só teve alguma força porque estava grande, cheio. Para avançarmos, para que conquistemos nossos objetivos, só com muita gente, só com o apoio da maioria: o movimento estudantil precisa se ampliar – ir para as exatas, biológicas, para os Campi do interior. O ato provou que precisamos também buscar o apoio do povo, e estabelecer laços com movimentos sociais, tais como a FLM, que lutam por direitos e que igualmente enfrentam a repressão da PM e de todo o aparato a serviço de uma elite atrasada e de uma falsa democracia. Nossa luta é uma só. Nosso inimigo é o mesmo. Precisamos extrapolar os muros da universidade e estabelecer com o povo e suas organizações um só movimento.

Os muros do movimento estudantil (a assembleia)

Após o ato, seguiu-se a assembleia geral dos estudantes da USP. Também muito cheia, mais de 1.500 estudantes. Uma assembleia histórica – pelo contexto, pela motivação, pela pauta, pelo local. Há algumas semanas, Rodas declarou achar um absurdo a Faculdade de Direito ceder o salão nobre para atividades que não fossem oficiais. (Justo ele, que em 2007, quando era diretor da Faculdade de Direito, cancelou as aulas e abriu o salão nobre para a votação do impeachment do então presidente do CA XI de Agosto, Ricardo Leite Ribeiro. A razão: porque o CA apoiou a ocupação pacífica da Faculdade de Direito pelo MST, ocupação essa que, todos se lembram, sofreu a reintegração de posse pela Tropa de Choque a mando dele, Rodas). Pois bem, ignorando solenemente o Reitor, o atual diretor da Faculdade de Direito, professor Magalhães, abriu o salão nobre para a assembleia geral dos estudantes da USP. (Parece que a Faculdade de Direito tornou-se um lugar propício para o tirano sofrer derrotas).

Aqueles e aquelas que após a marcha permaneceram para participar da assembleia ficaram na expectativa de participar de uma atividade como o ato: cheia e unitária, que contribuísse para o movimento se organizar melhor, ter uma melhor compreensão do inimigo e das táticas a adotar, ter mais coesão e ânimo para seguir lutando. Infelizmente, não foi isso o que aconteceu. Quem ficou na assembleia percebeu que nem tudo são flores e papéis picados jogados do alto dos edifícios. (Mesmo no ato, quem andou perto do caminhão de som já pôde perceber isso). Prevaleceram as discordâncias, a denúncia, as falsas polêmicas e a demarcações de território. A assembleia foi tumultuada. E por quê? Porque, a exemplo do que tem acontecido há muito tempo no movimento estudantil, também nessa assembleia houve uma disputa fratricida entre dois segmentos do movimento. Que é, no fundo, uma luta de vaidades, de disputa entre aqueles que querem ter mais razão, serem mais revolucionários, gritarem mais alto, ou seja, uma luta para se autoconstruir. Não surpreende que, num determinado momento, o plenário tenha feito coro: “fora partidos”. Um coro que errava o alvo, mas que expressava um sentimento legitimo: de que os partidos têm atrapalhado o movimento, têm (literalmente) colocado suas bandeiras à frente da bandeira do movimento. O problema não é a existência dos partidos, mas esta prática (que pode, inclusive, ser feita por estudantes independentes) de colocar a autoconstrução acima da construção do movimento.

O desafio de todos é fazer o movimento crescer: trazer mais e mais estudantes, conquistar o apoio do povo para além dos muros da Universidade. No entanto, essa lógica fratricida e autoritária de movimento tem levado ao exato oposto: ela afasta os estudantes. E quanto mais afasta os estudantes, mais o movimento fica restrito aos grupos. E quanto mais fica restrito aos grupos, mais os grupos priorizam a luta interna. E quanto mais priorizam a luta interna, mais a direita cresce no movimento e mais o tirano se sente a vontade para mandar e desmandar.

Por que de um ato coeso e unitário, segue-se uma assembleia que na prática foi um verdadeiro show de vaidades? O que explica tamanho contraste? E o que fazer para superar o prevalecimento da luta fratricida nas instâncias do movimento? Devemos ter cuidado com as respostas fáceis. Embora compreensível, a hostilidade aos partidos não resolve o problema. Uma coisa é certa: se há grupos que agem para impor a sua linha, se há grupos que usam o movimento para se auto construir, é porque existe espaço vazio. Porque, nos últimos anos, o movimento estudantil tem se restringido aos pequenos grupos que dele participam.

A solução passa por fortalecer a organização de base do movimento, de modo que a base não apenas seja parte do movimento, mas tome parte no movimento, não deixando nenhum espaço vazio. Mas a solução não virá de uma medida, de um decreto. É um processo, de formação e organização de base, e que depende, sobretudo, da própria base. O grande saldo dessa greve, independentemente do seu desfecho, é que ela está ajudando nesse processo.

Nota sobre a última Assembleia Geral, ocorrida em 23/11

Na última Assembleia, no dia 23 de Novembro, ocorreu uma votação sobre o responsável pela organização da Calourada Unificada da USP 2012. Depois de inúmeras votações para que fosse aferido o contraste, definiu-se que o Comando de Greve Geral da USP será o responsável pela Calourada.

Escrevemos esta nota com o intuito de colocar nosso posicionamento, bem como contribuir para um debate polêmico, que acabou se tornando central em nossa última assembléia.

Antes de entrar no mérito da questão, é preciso deixar claro qual é a polêmica real. Não está em questão quem poderá participar da discussão sobre a Calourada. Ela sempre foi discutida em espaços abertos a todos os estudantes. Tampouco está em questão quem a organizará, ou seja, quem mandará ofícios, enviará convites, correrá atrás de infraestrutura etc. Essa sempre foi uma tarefa organizada em conjunto entre CAs e DCE, e aberta a quem queira ajudar, inclusive os delegados no Comando de Greve.

A polêmica, que na assembleia não ficou clara no encaminhamento das propostas, é: em havendo discordância sobre alguma questão envolvendo a Calourada Unificada, quem decidirá? O Comando de Greve ou o Conselho de Centros Acadêmicos?

Porque somos contrários à deliberação de que o Comando de Greve organize a Calourada Unificada da USP:

1. Pensemos na função desse comando: ele é uma instância executiva da Greve Geral da USP, não uma entidade, e só existe em função da greve. Ou seja, quando a greve acabar, o comando será dissolvido automaticamente.

2. Propor que o Comando de Greve continue a existir mesmo depois da suspensão da greve e que o Comando de Greve decida sobre a Calourada no lugar do CCA é o mesmo na prática que propor a substituição dos CAs pelo Comando de Greve.

Os CAs são uma conquista do movimento, têm legitimidade na base, e são tão ou mais representativos do que o Comando de Greve. Aliás, foram os CAs que puxaram essa greve desde o começo e estão na linha de frente de sua organização cursos. Negar as entidades é negar a nossa organização de base.

3. A afirmação de que “os CAs participam do Comando de Greve” tem inúmeros problemas, a começar pelo fato de que existem muitos cursos que não estão em greve, isso sem contar os cursos dos campi do interior, que ficariam alijados de participar das decisões sobre uma atividade que diz respeito a toda a USP e que é fundamental para garantir uma grande mobilização no próximo ano.

Chegamos, aqui, à própria ideia do que é a Calourada Unificada e como ela é construída. A recepção geral é de toda a USP: dos cursos em greve, dos que não estão em greve, dos campi do interior e dos da capital. Os companheiros que defendem a proposta que o Comando de Greve realize a tarefa parecem desprezar isso.

Sobre a votação da proposta na assembleia:

1) O encaminhamento e as defesas da proposta na assembleia: A proposta foi mal encaminhada. O comando de greve tem delegados, e as polêmicas que ocorrem nas reuniões vão a voto. Na prática, propor que o comando de greve organize a calourada unificada implica as polêmicas sobre a calourada unificadas serem votadas no comando. Ou seja: a) só os delegados poderão votar; b) cursos que não têm delegados não votarão; c) o comando de greve vai substituir o CCA. Isso não ficou claro no encaminhamento e nas defesas.

2) Sobre o mérito da defesa na assembleia: Quem propôs e defendeu que o comando de greve organize a calourada unificada acredita que as entidades são burocratizadas e que a verdadeira democracia é a eleição de delegados em assembleia – ou seja, acredita que
o comando de greve deva substituir as entidades. Se querem pensar assim, que pensem, mas que sejam honestos na exposição de seus argumentos. Isso deveria ter sido dito no momento das defesas, mas não foi colocado.

3) O tumulto na votação: Queremos deixar claro que na assembleia votamos contra a proposta de que o comando de greve organize a calourada, mas vimos o contraste já na primeira votação. A insistência de que não havia dado contraste foi absurda, uma tentativa de implosão da assembleia. Lamentamos profundamente que ainda exista esse tipo de prática no interior do movimento, de se realizar inúmeras vezes a mesma votação, milhares de declarações de abstenção e questões de ordem, que não foram feitas para ajudar o Movimento, mas apenas para tentar demarcar uma posição. Com isso, apenas afastamos aqueles que já se colocaram, mais de uma vez, contra a autoconstrução dos grupos e as disputas fratricidas e estão ali presentes.

Por que somos contrários à abertura imediata de negociação com a Reitoria

Na última assembléia, realizada no dia 17/11, na FAU, foi à votação a proposta de abertura imediata de negociação com a Reitoria. Houve defesas a favor e contra. Na votação, não houve contraste, tendo a proposta dividido o plenário e, por esse motivo, sido retirada por aqueles que a propuseram. Como quem a propôs já anunciou que a apresentará novamente na próxima assembléia (23/11), resolvemos escrever este panfleto, para expor por que somos contrários à abertura de negociação com a Reitoria.

Como todos sabem, a pauta de nossa greve envolve cinco eixos (ver Box no verso). Pensando nisso, a primeira coisa em que devemos pensar é: Rodas já sabe de todos eles. A Reitoria tem o dever de providenciar iluminação, circulares etc. E, se não o fez, é porque a política de segurança da Reitoria é a PM. Temos de dizer isso para os estudantes que não estão participando da greve e para a sociedade.

Dizemos isso porque, havendo negociação, o que tenderia a ocorrer é que, muito possivelmente, Rodas sequer discutiria os 4 primeiros eixos, mas abriria possibilidades quanto ao eixo 5 (política de segurança). Ele poderia fazê-lo porque não lhe custa nada e,
sobretudo, porque sairia dessa com a imagem do “reitor do diálogo”. Ao mesmo tempo, negociar o eixo 5 não implica negar a presença da PM no campus. A Reitoria pode simplesmente colocar os pontos desse eixo como complementares ao convênio com a PM.

É evidente a importância do 5o eixo, e é evidente também que o ME tem de negociá-lo com a reitoria, bem como todas as reivindicações dos estudantes. Não se trata de ser contra a negociação por princípio. A questão é: se ficarmos presos à ideia de que precisamos negociar pois precisamos ter conquistas concretas nesta greve, perderemos de vista algo que é central.

O plano de segurança só entrou em nossa pauta pois temos o dever de mostrar que há uma alternativa para a segurança que não a PM. Mas a motivação da greve não é este eixo; é outra. É protestar contra o extremo autoritarismo da reitoria, expresso na reintegração de posse (estopim da greve), na maneira como o Reitor é “eleito”, na estrutura de poder feudal da USP, na militarização da universidade e da sociedade, nas recorrentes abordagens policiais dentro e fora da USP. No fundo, essa greve é essencialmente um protesto político, um grito de indignação.

Ainda assim, temos reivindicações: os 5 eixos. Mas, mesmo do ponto de vista deles, não há sentido em negociar. Afinal, existe uma hierarquia entre os eixos. Os principais correspondem aos itens 1 a 4. Ora, não tem cabimento, depois de tudo o que aconteceu e fizemos, negociar com a Reitoria por iluminação, circular etc., tamanha a desproporção entre tais reivindicações e os demais eixos. Negociar neste momento implica encobrir o que é central (eixos 1 a 4) e colocar no centro o que neste momento não é o central.

Independentemente do desfecho da greve, já temos um ganho: saímos da universidade e estamos dialogando com a população; estamos mais organizados e coesos; mais pessoas em mais cursos e unidades estão participando do movimento e se engajando na luta contra a política da reitoria. Enfim, o que movimento não conseguiu buscar desde o início do ano (disseminar o sentimento anti-Rodas e mobilizar os estudantes) agora está mais do que bem colocado. Nesse ponto de vista, nos fortalecemos, e temos agora mais condições para dar sequência à luta, ao longo do ano que vem. Isso é fundamental: mantermos nossa força depois que a greve acabar.

Esse momento deve ser encarado como o início do movimento e não o seu fim. Ademais, se o movimento é forte (e é, pois muita gente está mobilizada), nossa força agora não está no poder de nogociação com a reitoria (esta greve é somente de estudantes e no fim do semestre), mas na enorme capacidade que demonstramos em colocar em discussão, na USP e na sociedade, a política da reitoria e o papel da PM. E no ganho de consciência, de participação e de organização que a greve proporcionou.

Portanto, associar a vitória nesta greve à busca de concessões (provavelmente muito pequenas ou nulas) referentes ao eixo 5 é um grave erro. E, aqui, mais uma vez é preciso dizer: uma negociação com a Reitoria poderia minar esse ganho. Além de novamente nos dividir (e a divisão na assembléia da FAU já o comprova), frustraria muitos dos que estão engajados na greve, talvez a maioria. Frustraria mais do que sair do ano sem nenhum ganho estritamente “concreto” porém com o recado político mantido. E, principalmente, mantido o acúmulo moral e de ânimo dentre os estudantes que participaram desse movimento, para o ano que vem. Em suma, não tem sentido o desfecho dessa greve ser “mais circulares”.

Quem somos? Um coletivo de estudantes de diferentes cursos e campi da USP. Desde o começo das mobilizações nossa prioridade tem sido a greve. Respeitamos @s companheir@s que apresentaram a proposta de negociação com a Reitoria. Sabemos de seu compromisso para com a greve, embora discordemos deles nessa questão específica, que é polêmica e delicada. Esperamos contribuir com o debate, sem sectarismo nem denuncismo, pois acreditamos que o movimento se constrói com respeito, fraternidade e diálogo.

Malufinho, a pesquisa do Datafolha e a Democracia

Por Antônio David

Não é de hoje que a turma da direita procura desesperadamente os holofotes e microfones da imprensa para se autoproclamar os representantes da “maioria”, os que vieram para salvar os estudantes contra a “esquerda radical” que, segundo eles, toma conta do movimento estudantil da USP.

No dia seguinte mesmo da ocupação da Administração da FFLCH, alguns estudantes de direita postaram-se em frente do prédio ocupado, procurando as câmaras de TV para fazer o discurso que já conhecemos: que este movimento estudantil é uma minoria, e que eles são os verdadeiros porta-vozes da “maioria”.

Esqueceram-se os colegas de dizer que na última eleição para o DCE da USP, eles, porta-vozes da “maioria”, tiveram apenas 5% dos votos, num universo de mais de 8 mil votos. Onde estava a “maioria”, que não votou neles? Que eu saiba, a “maioria” não tem porta-vozes oficiais e não deu procuração a ninguém pra que fale em nome dela.

Seu principal líder é Rodrigo Souza Neves, estudante de História até ano passado e agora estudante de Gestão de Políticas Públicas, amplamente conhecido como “Malufinho”. O motivo? A foto, no final desse artigo. Se falo dele, é porque ele é de fato o líder, articulador, porta-voz e figura pública do grupo. A crítica não é personalista; o grupo é que parece ser. Leia o resto deste post

O Reitor, a PM e a fascistização oculta da sociedade

Como comprova a pesquisa do Núcleo de Estudos da Violência da USP, a abordagem policial “reproduz um padrão arcaico e discriminatório de classificação dos indivíduos”

 17/11/2011

Publicado em Brasil de Fato

Luisa Paiva e Lira Alli*

A Universidade de São Paulo é conhecida internacionalmente pela excelência acadêmica. Todos os anos, rankings internacionais situam a USP na lista das melhores do mundo. Se houvesse, no entanto, um ranking que apontasse o caráter antirepublicano e antidemocrático das universidades brasileiras, a USP certamente ficaria em primeiro lugar.

A USP é a universidade mais antidemocrática do Brasil. Antidemocrática porque é dirigida por um pequeno círculo de poder, que se perpetua nas instâncias de decisão na base da troca de favores. Antidemocrática porque restringe o acesso a milhares de jovens que vêm da escola pública, aptos a estudar na USP tanto quanto os jovens de classe média que nela estudam. Antidemocrática porque, salvo exceções, a pesquisa atende demandas privadas, alheias às reais necessidades da população. Antidemocrática porque nela o ensino é alienante e despolitizador. Leia o resto deste post

Movimenta Bauru denuncia censura a cartazes de “Fora Rodas!”

Bauru, 11 de novembro de 2011

Carta aberta à Comunidade

O MOVIMENTA BAURU é um grupo de estudantes da USP do Campus de Bauru, que tem por objetivo discutir questões da Universidade de São Paulo e da sociedade em geral.

No dia 08 de novembro de 2011 fomos vítimas de um episódio lamentável ocorrido em nossa Faculdade: duas de nossas integrantes foram reprimidas ao tentar afixar cartazes com os dizeres “FORA RODAS” nos murais do Campus; as alunas foram encaminhadas à diretoria da Unidade, onde o diretor, Professor Doutor José Roberto Pereira, e a vice-diretora tentaram convencê-las de que praticavam um ato irregular e antidemocrático porque não “pegaria bem” para a USP de Bauru reclamar da Reitoria. Após argumentação o Diretor permitiu que as alunas colocassem os cartazes nos murais, desde que assinados. O relato completo do fato foi enviado pelo MOVIMENTA BAURU a diversos Centros Acadêmicos e entidades estudantis. Temos recebido apoio de diversos grupos desde então.

Entretanto, surpreendentemente, no contexto do campus de Bauru, o fato em questão não foi bem interpretado pela maioria dos alunos de graduação e não ganhou apoio esperado, isso com a justificativa de que Bauru nunca fez essas coisas e não deveria começar agora porque denigre a imagem do Campus. Leia o resto deste post

Posição do coletivo Universidade em Movimento sobre a ação da Tropa de Choque e a ocupação do campus pela Polícia Militar

1- As imagens veiculadas em todos os noticiários falam por si. Hoje o tirano João Grandino Rodas deu provas definitivas de que é o mais autoritário, o mais covarde e o mais medíocre dos Reitores que a USP já teve. Provou que de fato merece o título (inédito) que lhe foi dado pela Congregação da Faculdade de Direito: “Persona non grata”. Merece que todas as Congregações lhe deem esse título.

2- A ação truculenta da PM não teve como objetivo apenas desocupar a Reitoria. Objetivou militarizar o campus; mais do que isso, objetivou subjugar as consciências de quem estuda e trabalha na USP e de toda sociedade. No fundo é esse o projeto deste Reitor: difundir a ideia de que ele manda, e o restante tem de obedecer; de que não existem conflitos na USP, mas apenas “distúrbios provocados por uma minoria”; e de que a “desordem” deve ser tratada como caso de polícia, na base dos gritos, das bombas de efeito moral, das balas de borracha, do cassetete, da perseguição e da prisão.

3- Desde que a PM passou a ocupar o campus de forma ostensiva, a única mudança que houve foi que os “enquadros” e a intimidação física e moral passaram a ser recorrentes – são vários os relatos de estudantes revistados na saída da biblioteca da FFLCH, por exemplo. Não houve melhoras na segurança para os usuários do campus. Como sempre, a mídia manipula a informação. (Seria surpreendente se não o fizesse).  A ação da PM nesse dia 08.11.2011 – não apenas na Reitoria, mas também no Crusp, acordando estudantes com bombas de efeito moral e aos gritos -, apenas comprova o total despreparo da PM, e sua vocação para o fascismo. Como o próprio brasão de armas da PM o comprova (Ver no site da PM: “corporação” e “brasão de armas”). A polícia não existe para garantir a segurança, mas para reprimir. Por que no caso da USP seria diferente? As políticas de prevenção contra o crime ainda não foram tomadas: ainda há cantos escuros pela USP e a guarda universitária continua mal treinada.

4- Sugerimos a todos os diretores e diretoras de unidade e representantes de Congregação que sigam o exemplo do professor Magalhães, diretor da Faculdade de Direito: recusem-se a pisar no Conselho Universitário enquanto esse medíocre for Reitor.

5- A ocupação da Reitoria foi um movimento pacífico, apresentado pela mídia de forma totalmente distorcida para a sociedade, e que reivindicava algo que deveria fazer parte da normalidade: participação nas decisões. Se a USP fosse uma universidade democrática, se o Reitor fosse eleito com o voto direto da comunidade universitária, se no Conselho Universitário houvesse uma representação adequada de estudantes, funcionários e professores, não haveria ocupação. As questões seriam discutidas e encaminhadas normalmente, no diálogo. Ocorre que a USP é um feudo, onde um pequeno círculo de poder manda e desmanda. O Reitor nomeia a maioria dos eleitores do Reitor que o sucederá. E assim um pequeno grupo, um círculo de poder, ligado ao Governo do Estado, perpetua-se como proprietário da USP.

6- Mas a USP não é desse grupo, nem de nenhum outro. A USP deve ser do povo. Muitos dos que aqui estudaram, trabalharam, pesquisaram e viveram enfrentaram a polícia, foram perseguidos, caluniados, presos, alguns torturados e assassinados. Seguiremos o seu exemplo. Não nos curvaremos diante de nenhuma polícia. E as futuras gerações não se curvarão. Lutaremos sempre, por democracia na universidade, e para que a universidade atenda de fato aos interesses não de um grupo e de um partido, mas da sociedade, da grande maioria da população.

7- Propomos que o movimento estudantil concentre toda a sua força e energia para falar para a maioria dos estudantes a verdade. É preciso buscar o apoio ativo e declarado da maioria. A força dos nossos inimigos está no dinheiro, na mídia e no aparato de Estado (inclusive a PM). Nossa força está no número de pessoas que conseguimos agregar em torno de nossas causas. Mais do que nunca, precisamos deixar as vaidades de lado, e ter coesão e unidade. E isso exige que a autoconstrução fique de fora.

USP-RP em movimento

Seguem as contribuições d@s companheir@s de Ribeirão Preto ao nosso debate de Movimento Estudantil:

Entendemos a necessidade de se garantir o debate pela Reforma Democrática da USP. Os documentos de colegiados mantidos em segredo somente aos seus membros é incoerente como prática de órgãos que decidem por toda a comunidade USP. O estatuto da USP mantem uma estrutura hierárquica arcáica que imobiliza a expressão dos estudantes, funcionários e da sociedade de fora dos muros da universidade. Listamos alguns pontos que devem ser incluídos em debate pelo Movimento Estudantil, cabíveis de serem acrescentados a outros mais: Leia o resto deste post

Posição do coletivo Universidade em Movimento sobre a ocupação da Reitoria

1- A ocupação da Reitoria da USP deve ser vista e julgada dentro de seu contexto. E o contexto é o de uma universidade onde não existe nenhuma democracia. A USP é a universidade mais antidemocrática do Brasil. Se os estudantes tivessem voz no Conselho Universitário, se essa instância fosse paritária, se o Reitor fosse eleito pelo voto direto da comunidade universitária, certamente não haveria ocupações, greves, paralisações, protestos. Errando ou acertando, o fato é que os estudantes lutam porque as decisões na USP são tomadas por um pequeno circulo de poder, que se comporta como se fosse proprietário da USP.

2- O atual Reitor, João Grandino Rodas, não foi eleito por ninguém. Sua legitimidade é tão nula que mesmo na pseudo-eleição para Reitor, em que 1% dos professores da USP vota, ele ficou em segundo lugar. Rodas é o Reitor de um voto só, imposto pelo Governador do Estado. E sua gestão é a mais autoritária dos últimos anos, de fazer inveja aos Reitores da Ditadura Militar. A verdade é que Rodas administra a USP como se estivesse administrando a sua fazenda. E a assinatura do convênio com a Polícia Militar foi apenas mais uma de muitas iniciativas que ele tomou de forma absolutamente unilateral e arbitrária. A ocupação da Reitoria é uma resposta de uma parcela do movimento estudantil a tanto abuso e a tanta arbitrariedade.

3- A presença da Polícia Militar no campus não resolve o problema da segurança dos usuários do campus. No dia em que o estudante Felipe foi assassinado, na FEA, havia uma ronda na USP. Há poucos dias, já com a presença ostensiva da PM no campus, o CA da ECA foi assaltado. O problema da segurança exige medidas que a Reitoria não enfrentou até agora, e sobre as quais sequer se pronunciou, como a total escuridão do campus, a enorme carência de pontos de ônibus e circulares, e a situação precária da Guarda Universitária. Desde que a PM foi autorizada a atuar de forma ostensiva no campus, a única coisa que mudou foram os constrangimentos e os abusos. Tornaram-se recorrentes os “enquadros”, sobretudo de trabalhadores terceirizados que moram na favela São Remo, mas também de estudantes e professores. Na véspera da revolta que houve no estacionamento da FFLCH, a PM fez uma “operação saturação”: constranger, abusar, humilhar, “impor a autoridade”. A revolta não foi pela defesa do direito de fumar maconha; foi na verdade uma explosão contra essa prática fascista. A reivindicação da ocupação é, portanto, mais do que justa – inclusive do ponto de vista da segurança no campus.

4- Apoiamos todas as formas de lutas que perseguem causas justas, e reconhecemos a ocupação como um instrumento legítimo de luta levado adiante por uma parcela do movimento estudantil. Sabemos que existem grupos sectários e inconsequentes que tentam instrumentalizar e manipular a ocupação para a sua autoconstrução, alimentando o sectarismo e a beligerância no interior do movimento. Mas sabemos também que, apesar de táticas e métodos que nem sempre contribuem para que obtenhamos apoio entre os estudantes e na sociedade, a maioria dos estudantes que estão na ocupação estão lá por acreditarem na justeza da causa pela qual lutam. São companheiros e companheiras que lutam de peito aberto, pela universidade pública. Justa é a sua luta. Injustos são os que os agridem.

5- O movimento estudantil encontra-se cindido. A assembléia que deliberou a desocupação da administração da FFLCH, e da qual se seguiu a ocupação da Reitoria, é um retrato disso. A cisão é fruto de um vazio político deixado sobretudo pelas entidades estudantis, que precisam fazer uma autocrítica e voltar a cumprir o papel de organizadoras do movimento, ao invés de instrumento de autoconstrução e propaganda dos grupos que as dirigem. Enquanto estiver cindido, o movimento acumulará derrotas. A força de nossos inimigos está no dinheiro, na mídia e no Estado; nossa força está no no número de pessoas que agregamos em torno das causas pelas quais lutamos, e em nossa coesão e unidade. O movimento estudantil precisa voltar a perseguir o APOIO DA MAIORIA dos estudantes para as causas pelas quais luta, caso contrário só acumulará derrotas. Ao mesmo tempo, o movimento precisa com urgência sair da lógica fratricida do denuncismo e da beligerância – o que não significa deixar de fazer a crítica e a autocrítica quando estas devem ser feitas -, e voltar a ter coesão e unidade. Mas para isso muitos dos grupos que atuam no movimento estudantil precisam deixar a vaidade em casa.

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