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Textos produzidos por integrantes e apoiadores do Universidade em Movimento

A USP e o pixo: as contradições não têm carteirinha

No dia 21 de dezembro, sexta-feira, o vão do prédio da Geografia/História recebeu a 6ª edição da festa USP IN BASS. Muitos foram os comentários gerados pelos pixos que ficaram espalhados pelo prédio, corredores e banheiros da faculdade. Acreditamos que o acontecimento foi importante, porque pode nos ajudar a levantar uma série de reflexões.

usp2A USP IN BASS é uma festa que agrega vários estilos musicais da Bass Culture (um tipo de música que se utiliza de aparelhagem de som pesadas, com a música – especialmente os sons baixos – muito alta, tipo daquela que faz tremer o corpo inteiro). Foi organizada por dois coletivos independentes, a U-Dub 420 e a Under Crew. Música underground, numa festa dentro da universidade.

A USP é uma universidade pública. Pode parecer redundante afirmar isso nos espaços onde esse texto irá circular, mas é importante lembrarmos que para a imensa maioria das pessoas que moram em nossa cidade isso não é tão claro assim. Além de não ser claro que a USP é pública, o significado de “coisa pública” também é muito questionável.

O que resta de público hoje, para quem vive em São Paulo? Poucas praças e parques, em sua grande parte concentradas em regiões centrais da cidade, com banco anti-mendigo e grades de proteção; cemitérios (que muitas vezes são utilizados como parques, na falta desses); escolas e hospitais em situação calamitosa (precisamos lembrar que faltam vagas nas creches, as escolas parecem prisões e tem gente que morre na fila do hospital esperando atendimento?). É isso que a maior parte dos cidadãos de nossa cidade conhecem de público.

Um lugar em que a maioria dos estudantes e professores é branca e chega de carro (e nos cursos “de ponta” não chega a ter 1% de estudantes negros) não se parece em nada com todos os outros espaços públicos que existem na cidade. Depois das 20h, só quem é da “comunidade uspiana” pode entrar e, se você pertencer a essa comunidade, anda de graça num ônibus especial. A não ser que te informem, te expliquem direitinho, é impossível deduzir que a USP é pública.

Porque, por mais que a USP seja pública, ela opera a partir de uma lógica privatizante e privatista. Fundações e cursos pagos ganham o nome de “extensão universitária”; os funcionários são terceirizados; precisa ter carteirinha para entrar, para se alimentar, para praticar esportes. No ensino, existem empresas dando aulas (a editora Abril no curso de jornalismo, por exemplo), e na pesquisa, os interesses de empresas privadas determinam muito mais o tema de debate do que as necessidades populares.

Festas são tradicionais no meio universitário. Além de importantes espaços de sociabilização, têm também sua importância social. Muitos artistas importantes surgiram no cenário universitário, e shows importantes para a história da música brasileira tiveram como palco a universidade. Basta lembrarmos do show proibido de Gilberto Gil no auditório vermelho da POLI, em 1973, um marco musical da luta contra a Ditadura Militar.

As festas dentro da Universidade têm sofrido com uma ofensiva conservadora. A proibição da utilização do espaço – público – para as festas, de entrada das pessoas e de cerveja no campus são táticas recorrentes que, infelizmente, têm ganho espaço. Quem não tem vínculo com a universidade é proibido de entrar de carro ou a pé no campus Butantã após as 20h – e isso inclusive está escrito no convite para a USP IN BASS DE CARRO: “APÓS 20H ENTRA NA USP SOMENTE COM CARTEIRINHA DA USP”.

A Universidade de São Paulo é um espaço público, mas somente para aqueles que passaram por um filtro: vestibular ou concurso, a USP é mais pública para professores e estudantes, menos para funcionários, menos ainda para os terceirizados, que nem podem utilizar o restaurante universitário. No mesmo dia da USP IN BASS, um golpe contra as festas e a música produzida dentro da Universidade foi desferido com a destruição do Canil, importante espaço na ECA em que aconteciam muitos shows, festivais e apresentações culturais dos mais diversos tipos.

A USP IN BASS é mais uma das festas que ousa ocupar o espaço público privatizado da Universidade de São Paulo. E, junto com a festa, trouxe contradições do mundo que muitas vezes não conseguem passar pelo portão da Universidade. Pudera, as contradições não têm carteirinha.

O prédio da História/Geografia, durante a festa, foi pixado. Paredes, janelas e, inclusive os banheiros, recém-reformados. Em período de férias escolares, a reação ao ocorrido aconteceu na internet. Indignados com a intervenção, vários alunos tiraram fotos do local e as publicaram no facebook, o que acabou ganhando grande repercussão entre aqueles que estavam presentes na festa, provocando longas discussões na página do evento e em grupos da FFLCH.

Grande parte dessas discussões – acompanhadas, em vários momentos, de xingamentos e ameaças – contava, principalmente, com dois tipos de argumentos: Um deles considerava as pixações uma espécie de possível “carta branca” da reitoria para acelerar medidas que proíbem festas no campus. Esse argumento se utilizava da importância da luta do movimento estudantil, e afirmava como aquelas pixações representavam um retrocesso à luta contra repressão na universidade, que tal medida acabaria por fechar ainda mais a USP à população e apontando, contraditoriamente, os pixadores como inimigos. O outro argumento, utilizado por aqueles que estão alinhados às medidas tomadas pela reitoria, afirma que o vandalismo é um dos preços que se paga pela “inclusão social” na universidade.

Apesar dos dois argumentos aparentemente se colocarem em oposição, temos, em ambos, algumas similaridades: a maneira rasteira como tratam os sujeitos protagonistas desse ato, concebendo-os de maneira simplista, como infratores, aqueles que devem ser punidos; e uma concepção falha ou idealista sobre o significado de instituição pública. Se de um lado temos o discurso conservador, daqueles que se utilizaram do fato de maneira oportunista, temos também uma grave lacuna apresentada pelos que se colocam ao lado do movimento estudantil, marcado pela ausência de debate sobre aqueles que estão do outro lado do muro da USP, os jovens da periferia. Ora, se o movimento estudantil, que se diz tão preocupado com as questões ligadas às demandas populares, coloca-se de maneira conservadora contra uma expressão ligada à periferia, como então poderá impulsionar debates ligados a esse setor da sociedade, como o das cotas sociais e raciais na universidade, por exemplo?

Entendemos que a intervenção do pixo – grafado com “x”, assim como é reivindicado pelos próprios pixadores – marcou a presença da periferia na universidade. Essa, infelizmente, tem sido a única maneira que ela tem de se fazer presente na USP; e deve ser entendida também como uma maneira desses jovens responderem ao modo como a classe média, predominante na universidade, trata esses sujeitos. Historicamente afastada dos pobres, a USP se mantém cada vez mais restrita, branca e improdutiva para aqueles que a sustentam. O inimigo que se coloca diante desse fato não são os jovens pixadores, mas sim a estrutura anti-democrática e elitista na qual é concebida essa universidade.

Há ainda quem diga que os pixos feitos durante a USP IN BASS são vandalismo porque “não dizem nada, são os nomes das pessoas”. Com isso, querem dizer que não existe propósito artístico nem político no pixo, que é somente uma expressão do individualismo. Mas, se olhamos mais de perto, se nos lembramos que a política está, em princípio, em toda ação, se tiramos a lente do nosso preconceito dos nossos olhares, conseguimos entender que muitos dos jovens que pixam seu próprio nome nas paredes da cidade o fazem porque é o único jeito com que podem, de alguma maneira, registrar sua existência, encontrar-se numa cidade que não foi feita para eles, que não mostra pessoas como eles se dando bem na vida.

Para boa parte dos jovens da periferia, o único jeito que existe para estar na USP é através do pixo, com o que buscam chocar a nossa normalidade, mostrar que eles existem. Boa parte dos jovens que pixaram a USP se defenderam na internet chamando os estudantes da USP de “bando de playboy mimado” ou coisa do tipo. Ora, isso é a mesma coisa que dizemos quando dizemos que a universidade é elitizada, mas acrescido de todo o ódio que tamanha exclusão gera.

Por outro lado, é provável que se utilizem do que aconteceu para acelerar a proibição de festas, para justificar com mais força o fechamento do campus e a elitização da USP. Mas somente se paramos de buscar culpados e procuramos entender as contradições que envolvem o processo é que conseguimos entender o problema de fato.

Por mais que se discorde ou concorde com o pixo, não é culpado o jovem que deixou sua marca ali, nas paredes da USP, e não sabe dos problemas que existem dentro da Universidade (como também a Universidade não sabe dos problemas dos bairros em que vivem essas pessoas). Ele só sabe que aquele lugar é um lugar em que ele nunca entrou, não vai entrar, não pertence a ele nem aos seus filhos ou conhecidos.

O problema central, que gera todas essas contradições, é a estrutura completamente elitista, feudal, fechada e excludente da Universidade de São Paulo. Só conseguiremos incidir nessas contradições transformando a USP. Debater e implementar cotas sociais e raciais pode ser um primeiro passo, assim como defender os espaços estudantis e as festas. Mas só conseguiremos superar essas contradições quando a USP for uma universidade verdadeiramente pública e popular. Uma universidade em que o povo tenha espaço e voz, participação e poder. Uma universidade em movimento.

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MOVIMENTA BAURU: A história de como o movimento estudantil (não) foi construído na USP Bauru.

Como em todas as construções humanas, os motivos que nos levaram a dizer “Nós não podemos mais nos calar” são diversos, complexos e únicos para cada uma de nós, mas, sem dúvida, a revolta comum com a maneira com que o Movimento Estudantil se articulava na USP, e, mais ainda, com a maneira com que ele não se articulava no campus de Bauru, foi a principal causa do surgimento do coletivo, em 2010 que nomeamos de MOVIMENTA BAURU.

E surgimos.

Em, 2011, com apoio do Centro Acadêmico XVII de Maio, do qual a Camila ‘Peste’ e eu (Camila  ‘Curinthia’) fazíamos parte da gestão (como tesoureira e vice-presidenta, respectivamente), o Movimenta Bauru apresentou-se explicitamente à comunidade USP Bauru e ao mesmo tempo ao Movimento Estudantil, quando fizemos parte de um lamentável episódio de repressão por parte da diretoria da FOB USP ao proibir, censurar e ameaçar-nos quando espalhamos cerca de meia dúzia de cartazes, confeccionados em folha sulfite, com os dizeres ‘FORA RODAS’ pelo campus. Na ocasião o coletivo ganhou apoio de diversas entidades, porém, foi massacrado dentro do campus, com coordenação e apoio aos ataques vindos dos próprios professores.

Apesar da aversão, muitos alunos mostraram-se interessados e apoiadores às ideias que o Movimenta defendia.

Surgiu então a necessidade de delimitarem-se objetivos a alcançar e caminhos a percorrer, e foi assim traçada a meta de inserir o discurso político e contestador no cotidiano dos estudantes de Bauru e, ao mesmo tempo, mostrar que há um jeito diferente de militância, que não existe a obrigatoriedade de um curso da área de humanas para que exista um movimento de estudantes, de que não é preciso usar um linguajar restrito e segregador para falar de esquerda.

E conseguimos.

Quando assumimos a gestão do Centro Acadêmico no final de 2010, praticamente nenhum aluno sabia sequer o que era um centro acadêmico, era comum afirmarem que o c.a. era um prédio – isso porque temos uma sede,  cedida pela FOB, que fica longe do campus. Hoje, com a nossa saída, os alunos estão se articulando para tentarem montar uma chapa de gestão do c.a. Ainda que não seja da maneira que acreditamos que deveria ser, vemos com bons olhos o interesse do aluno de Bauru; antes alheio e alienado às questões da Universidade e da sociedade, agora, ao menos, tentando se inserir nas organizações estudantis.

Ainda que não tenhamos conseguido trazer a comunidade FOB para a militância de fato, conseguimos realizar diversas atividades dentro e fora do campus, como mostras de vídeos, grupos de discussões, intervenções culturais e articulações com outros grupos de Bauru, como o movimento estudantil da UNESP.

Obtivemos apoio e admiração por parte de alguns grupos de alunos e funcionários.

E veio a repressão.

A perseguição política por parte da diretoria e gestores que sofremos, como resposta às nossas ideias, encontrou no perfil do aluno de Bauru submissão e medo necessários para que fossem acatadas as ideias de ódio e revolta contra quem ousasse trazer para Bauru as ‘imundices desses estudantes de humanas’, no caso nós, a Peste e a Curinthia.

Sem exceção nenhuma, todos os apoiadores que costumavam participar das reuniões e atividades propostas pelo Movimenta Bauru foram ou subornados com bolsas de pesquisa ou de intercâmbio, ou ameaçados de reprovação, sendo necessário que mudassem sua postura.

Em contrapartida, os alunos que se mostraram, desde o princípio, contrários ao coletivo (alunos do curso de odontologia, principalmente) foram encorajados e incitados a negar, reprimir e deslegitimar violentamente o movimento de estudantes. E quando digo violentamente, é exatamente o que quero dizer: agressões fortíssimas – estranhamente feitas apenas por facebook, nunca pessoalmente –  como, por exemplo, nos sugerirem trocar de curso, ao invés de pretendermos acabar com a paz de Bauru, ou me mandarem cuidar dos meus dois filhos, pois essa deveria ser minha preocupação.

A ideia de que somos o campus USP perfeito, de que aqui não há problemas, e de que os problemas dos outros não eram nossos fora quebrada, e trataram logo de tentar reconstruí-la, de tentar impedir que mais alguém dissesse isso.

Os boicotes foram muitos:

– no começo de 2012, quando assumi a presidência do centro acadêmico, fui proibida de sentar a mesa para recepcionar aos calouros (ato tradicional, no primeiro dia de aula, junto a outras pessoas representantes da comunidade USP Bauru)

– também fui proibida de participar do hasteamento da bandeira no dia do aniversário da faculdade, outra tradição por aqui.

-Quando o curso de fonoaudiologia passou por avaliação, no primeiro semestre de 2012, apesar de a Camila Peste ser representante discente do departamento de fonoaudiologia, e eu ser a representante discente do curso de fonoaudiologia na Comissão de Graduação e na Congregação, fomos proibidas de conversar com as avaliadoras.

-Enquanto morávamos no CRUSP havia um ‘caderninho’ específico para anotar os movimentos das Camilas.

-Ainda no primeiro semestre, sofremos processo administrativo com intuito de expulsão do alojamento. Após ameaça de sindicância, fomos gentilmente convidadas a nos retirar do CRUSP, quando fomos contempladas com o auxílio-moradia (mesmo havendo muitas vagas ociosas no alojamento).

– Por um período de cerca de quatro meses, passaram a não nos mandar as pautas e atas das reuniões que deveríamos participar como representante discente.

– A Peste, representante discente na Cog, apesar de procurar o professor presidente da Comissão de Graduação antecipadamente para poder acompanha-lo nas viagens até São Paulo com carro e motorista da USP, todo mês era ‘esquecida’ aqui por Bauru, e quando não era deixada para trás sofria retaliações das professoras, por ausentar-se do estágio ou da aula.

-A USP Bauru recebeu um prêmio pela Semana de Recepção aos Calouros, que deveria ter sido entregue ao centro acadêmico, mas foi recebido às escuras pela direção da instituição.

-Recebíamos ameaças diretas de reprovação em algumas disciplinas, caso não nos preocupássemos apenas com a graduação.

-Também nos ameaçaram que colocariam em nosso histórico a nossa subversão.

-No último sábado, ao chegarmos no prédio do c.a. fomos proibidas de ali entrar. O segurança chamou reforços e nos explicaram que as Camilas da Fono estavam proibidas de acessar o espaço – apesar de sermos da atual gestão do centro acadêmico.

Enquanto o clima de tensão se espalhava perdíamo-nos na falta de ‘braços’ e de ‘cabeças’ para construir o que quer que fosse em Bauru. Além de perdermos apoio interno, pois os simpatizantes simplesmente amedrontaram-se, não encontramos apoio externo para construir um movimento de luta contra o que estava sendo praticado, nem para construir trabalho de base, tampouco para defendermo-nos.

Tentamos resistir.

Ao perceber o pânico que representávamos, usamos essa atenção para criar algumas discussões, levantar questões sociais, feministas e educacionais, e incitar que ao menos deveriam ser pensadas. Infelizmente não conseguimos transpor o debate além internet, mas ao menos ele existiu de alguma maneira.

Hoje, ao repensar a trajetória desse projeto chamado Movimenta Bauru, conseguimos enxergar os frutos, pois muitas sementes foram espalhadas, muitos alunos encontraram apoio e sentido em suas próprias ideias ao dialogar conosco, outros tantos nos procuraram para esclarecer dúvidas, para levantar discussões. Atualmente há um clima de contestação, principalmente no curso de fonoaudiologia, muito aquém ainda do necessário ao desenvolvimento do debate, porém inédito até então. Somos referência quando alguém quer saber se determinada imposição é legal ou justa, quando alguém sente algum tipo de violência moral (que é muito forte aqui) ou quando alguém precisa desabafar sobre as injustiças do mundo.

Individualmente, crescemos e fortalecemo-nos muito com essa experiência, e pretendemos dar continuidade a esse trabalho, agora além de Bauru e além do ME.

É realmente triste que não tenhamos conseguido alcançar resultados mais consistentes, mas temos a clareza de termos explorados todas as oportunidades que tivemos e criado as que foram possíveis.

Duas alunas, sozinhas, com pouco apoio externo e quase nenhum interno, fazendo esse alvoroço todo… Tem mesmo alguma estranha nos bastidores desse teatro chamado USP Bauru.

O Movimento Estudantil na USP de Bauru não venceu e não convenceu, e partilhamos nossas conclusões após essa enriquecedora jornada não para explicar o porquê de termos falhado, mas para alertar sobre a necessidade do apoio, do trabalho de base, da troca de experiências e informações entre todo o movimento de estudantes, para que ele se fortaleça de verdade e alcance os tão sonhados objetivos.

Agregar e não dividir.

A luta sempre continua!

Abraços a tod@s.

Curinthia e Peste.

Estudantes em movimento por um DCE em movimento! Carta-programa da chapa Universidade em Movimento

Amanhã,

A tristeza vai transformar-se em alegria,

E o sol vai brilhar no céu de um novo dia,

Vamos sair pelas ruas, pelas ruas da cidade,

Peito aberto,

Cara ao sol da felicidade.

Construir o movimento estudantil cotidianamente é tarefa de muitos; de todos que se preocupam com os rumos da Universidade e de nosso país, que acreditam que a Universidade não deve ser de uma minoria, que defendem um ambiente livre para a livre produção de conhecimento, que querem uma Universidade mais povo, mais operária, mais camponesa, mais negra, mais mulher.

É por isso que existimos e nos organizamos; por acreditarmos ser possível colocar a Universidade em Movimento. A USP é a universidade mais elitista do Brasil, além de ter uma estrutura de poder arcaica e antidemocrática que possibilita à Reitoria administrá-la como  bem entende. Essa é uma estrutura que precisa ser transformada, mas isso só acontecerá se atuarmos coletivamente, agregando mais estudantes que, assim como nós, estão em seus cursos e seus campi acreditando ser possível fazer um movimento estudantil diferente.

Como é a descrição no próprio site do DCE, “o Diretório Central dos Estudantes da USP, DCE Livre Alexandre Vannucchi Leme, é a entidade representativa dos estudantes tanto dos campi da capital como dos campi do interior, com a função de organizar e de expressar as vontades, anseios e posições políticas dos estudantes”. É com foco na ideia de organizar os estudantes que pensamos a necessidade de o DCE estar sempre ligado às entidades de base (Centros Acadêmicos) para atuar de maneira plural, ampla e levando sempre em conta as diversas realidades dos cursos da USP.

Nos lançamos com 64 integrantes dispostos a tocar a gestão do DCE. Acreditamos que esse número seja suficiente, e preferimos não inflar nossa chapa com o nome de pessoas que, na prática, serão nossos apoiadores. Além disso, cremos que uma gestão não funciona se os Cas e todos os estudantes não construírem o Movimento Estudantil cotidianamente – ou seja, o bom andamento de uma gestão não depende de um grande número de integrantes.

Vinculada à eleição de DCE está a eleição para Representantes Discentes (RDs). Estes são os estudantes que participam e atuam nos órgãos colegiados centrais da USP, como o Conselho Universitário, o Conselho de Graduação e o de Pós-Graduação , e as Comissões Permanentes da Universidade – como a de Legislação e Recursos. Os RDs são fundamentais para travar um diálogo entre as instâncias da universidade e os alunos. Ainda que sejam poucas as nossas cadeiras, não podemos deixar de preenchê-las, de participar das reuniões e de atuar conjuntamente com os servidores docentes e técnicos-administrativos.

Os métodos do movimento estudantil

Pensamos a democracia como uma determinada vivência política, algo que não se resume à estrutura de poder dos espaços (in)disponíveis. Com essa concepção, consideramos que, para reivindicar democracia na universidade, o movimento estudantil deve, também, ser democrático, carregando o diálogo e a prática da unidade como premissas fundamentais,  que vão além de um discurso bonito e facilmente bem recebido. Para que não nos contentemos com palavras de ordem, é preciso entender para que serve o DCE – ou para que deveriam servir as entidades representativas do Movimento Estudantil, como o DCE e os CAs.

Nesse sentido, é fundamental que entendamos, em primeiro lugar, que a força de nosso movimento reside justamente no nosso número e na nossa capacidade de mobilização. Somos diferentes grupos, diferentes opiniões, e é papel das entidades articular essas pessoas – seja buscando consensos entre posições divergentes, seja aproximando lutas semelhantes de lugares distantes. O que se vê hoje, ao contrário, são coletivos disputando a direção do movimento e que muitas vezes confundem mobilizar e politizar os estudantes com atraí-los para seus coletivos. Ora, é natural que existam grupos políticos diversos atuando na universidade e que defendam diferentes atuações, mas é a atuação em frentes unitárias, e não a luta fratricida, que gera força para o movimento estudantil.

Articular os Centros Acadêmicos

O Conselho de Centro Acadêmicos (CCA) é um espaço com um potencial muito grande para fortalecer e ampliar as relações entres os CAs, fortalecendo, assim, o movimento estudantil como um todo, tornando-o mais coeso e orgânico. Para isso, no entanto, é necessário que o CCA seja construído de maneira democrática:  (i) ele precisa ser, além de periódico (no caso, mensal), rotativo, para que estimule a participação de todos os CAs e não apenas dos da capital; (ii) a pauta deve ser encaminhada com antecedência de, no mínimo, duas semanas, para os CAs terem tempo de debater nos cursos, com os estudantes, a fim de levar posicionamentos mais representativos de sua base; (iii) se a gestão do DCE for apresentar propostas de encaminhamento, essas propostas devem ser enviadas previamente para os CAs também, de modo que nenhum debate seja feito sem consulta prévia aos estudantes, que são, afinal, meio e fim de nosso movimento.

Acima de tudo, o CCA deve ser um espaço que abarque a diversidade do movimento estudantil da USP. Porque mais importante do que a aprovação ou não das propostas de um ou de outro grupo é o movimento caminhar junto, lado a lado. O CCA é fundamental, porque acreditamos que o movimento estudantil da USP só será forte se os Centros Acadêmicos de cada curso estiverem integrados à realidade de seus cursos, conhecendo os estudantes e construindo movimentações que façam sentido para todos. O Encontro de Centros Acadêmicos (EnCA), é um espaço privilegiado para a troca de experiências e para formação política; ele deve ser construído pelo conjunto dos CAs, visando a responder os desafios que encontram no dia a dia de sua prática.

Articular os estudantes

Acreditamos que um DCE verdadeiramente representativo precisa conhecer as diferentes realidades dos diversos cursos e campi da USP – ou seja, é preciso ir além da FFLCH e do Butantã, e abarcar todos e todas em um movimento aberto e plural. Com isso em vista, consideramos essencial reconhecer o movimento político que há fora das atuações do tal “movimento estudantil”, entendido como à parte da maioria dos estudantes. Debates que ocorreram na FEA sobre a instalação de catracas, por exemplo, são parte daquela realidade, e devem ser encarados com a devida importância, respeitados e considerados, sim, como parte do movimento estudantil.

Para conseguirmos articular as diferentes realidades da USP, são necessários mecanismos de comunicação eficientes. O site do DCE deve conter informativos e convocatórias para diversas atividades – sejam elas organizadas pelo Diretório, por grupos de estudo, de extensão ou centros acadêmicos. É preciso, ainda, um boletim virtual a cada CCA realizado, publicizando a todos as discussões realizadas – para que atinjamos o maior número possível de estudantes. Um jornal impresso do DCE também deve ser produzido, inclusive com textos de pessoas que não são da gestão – para que a entidade seja construída, não a chapa vencedora. Acreditamos que esses são alguns dos desafios para construir um DCE que dialogue para além da FFLCH e do Butantã; um DCE tomado pelos estudantes.

Articular-se com outros fóruns e com as outras categorias

O DCE também deve estar em constante contato com outros grupos que fazem política em questões mais específicas, como a Associação de Moradores do Conjunto Residencial da USP (AMORCRUSP) e as associações de moradores de complexos residenciais de outros campi, além de estudantes que lutam pela criação de residência em campi onde ainda não há. É preciso também diálogo com a Associação dos Moradores da São Remo e outros grupos fora da USP que realizam luta social, entendendo que a nossa luta por permanência estudantil/moradia é parte de algo muito maior, fazendo com que nosso alcance ultrapasse os muros da Universidade.

Além disso, o contato com outras categorias da universidade deve ser intensificado, através de reuniões abertas com o Sindicato dos Trabalhadores da USP (SINTUSP), com a Associação dos Docentes da USP (ADUSP) , com Associação dos Pós-Graduandos (APG-Capital), com o Núcleo de Consciência Negra da USP,  entre outros.

Um dos maiores exemplos de articulação entre as categorias é o Fórum Aberto Pela Democratização da USP – responsável, atualmente, pela Campanha por uma Comissão da Verdade da USP. Congregando vários Centros Acadêmicos, o DCE, Sintusp, Adusp, além de diversos grupos políticos e independentes, o Fórum Aberto mostrou ser possível a unidade entre as categorias e diversos setores da Universidade, tendo em vista uma lúta conjunta. Esse espaço deve servir de exemplo para o Movimento Estudantil, ultimamente carente de momentos de unidade real.

A ocupação dos espaços

Ocupar o espaço público é ocupar a vida política da nossa universidade. A USP é uma universidade pública, que deveria ter seus espaços tomados por produções artísticas, debates políticos, atividades culturais. No campus Butantã, a sede do DCE fica ao lado do Bandejão Central e deve ficar aberta cotidianamente, não apenas quando há reuniões. Queremos que os estudantes ocupem de fato e com frequência aquele local, com café, com a exibição de filmes, saraus e, festas e happy-hours semanais. Além disso, acreditamos que é fundamental defender os espaços estudantis, em todas as unidades e todos os campi. São neles que vivenciamos parte importante da vida universitária.

As festas são momentos importantes para construir a sociabilidade necessária ao espaço universitário, para ocupar o espaço público, além de garantir o financiamento da entidade. Além disso, a contribuição dos Centros Acadêmicos também é importante para garantir a vida financeira do DCE, mas é fundamental que, em contrapartida, haja prestação de contas durante o ano para que os estudantes saibam como são as movimentações financeiras da nossa entidade. Se cobramos transparência da reitoria, também precisamos de transparência na gestão das nossas entidades.  Por fim, pensamos que a produção de materiais do DCE, que resgatem a imagem da nossa entidade e de Alexandre Vannucchi Leme, como marcadores de página, adesivos e camisetas, é uma possibilidade para avançarmos na construção de um DCE presente.

O povo na universidade

Certamente, é possível dizer que a Universidade de São Paulo é, sob alguns pontos de vista, uma universidade de qualidade – mas para quem? A que serve a USP? Para apontar alguma resposta, exige-se que nos debrucemos sobre sua fundação: quais interesses permearam sua criação e qual o conceito de educação adotado durante seus 78 anos de existência. Faz-se necessário, sobretudo, entender que os questionamentos que fazemos atualmente vêm desde sua fundação e refletem um problema histórico, ainda que agravado por circunstâncias atuais.

A USP, assim como a Escola Livre de Sociologia e Política, surgiu como uma forma de preparar a elite paulistana para dirigir o país. A ideia era que essas instituições formulassem um projeto de sociedade assentado no pensamento liberal, cumprindo, portanto, um papel civilizatório.

Os primeiros limites desse projeto se mostraram quando a Universidade não conseguiu mais atender as demandas da classe média emergente, sofrendo pressão para uma expansão de vagas – iniciou-se, assim, uma primeira reflexão sobre o papel da Universidade. Em 1962, existia um amplo movimento pela democratização da Universidade, pensando um projeto para além das demandas das elites paulistanas, barrado pela ditadura.

Nós, do Universidade em Movimento, em contraposição a esse projeto, queremos uma universidade pública, popular, aberta e democrática. Somos contrários às privatizações em curso e à pressão colocada por fundações de apoio dentro da universidade, e alimentadas pela reitoria. O financiamento da universidade deve ser exclusivamente público, garantindo sua autonomia para a produção de conhecimento, e impedindo a interferência de interesses mercadológicos na produção acadêmica. A USP  deve estar alicerçada nas demandas da maioria da população que a sustenta, tendo seu caráter público deve ser assegurado – ou melhor, conquistado verdadeiramente.

A universidade, quanto a seu espaço e a sua dinâmica, não é aberta à sociedade. Para transformar isso, defendemos a democratização do acesso à universidade, tanto através das cotas quanto pela necessidade de pensarmos expansão de vagas na USP e criação de mais universidades, visando o acesso universal.

Por todo o histórico da USP, sabemos que será muito difícil garantir a implementação de qualquer política que amplie o acesso à camada mais pobre da população em nossa universidade. Defendemos, no entanto, a implementação de cotas sociais e raciais no vestibular da USP. Para tanto, é fundamental construir essa pauta junto ao Movimento Negro – que já atua na USP, com o Núcleo de Consciência Negra e a Frente Pró-Cotas, dos quais o movimento estudantil não deve se apartar.

Acreditamos que cotas raciais e sociais são fatores imprescindíveis para democratizarmos a USP, que hoje é uma universidade quase homogênea em sua composição social e racial, garantindo equidade social e maior pluralidade na composição universitária. Por termos esse entendimento, entregamos uma de nossas cadeiras no CO ao Núcleo de Consciência Negra, por seu protagonismo na luta pelas cotas raciais na USP (e pelos direitos da população negra em geral), principalmente no ano de 2012, em que a discussão sobre as cotas está cada vez mais em voga.

Além do acesso, a permanência dos estudantes deve ser garantida. Atualmente a USP destina cerca de 3% de seu orçamento para todas as suas políticas de permanência e assistência estudantil, que envolvem moradia, subsídio alimentício e transportes nos campi. Um exemplo claro da insuficiência da atual política de permanência são os dados acerca da quantidade de vagas e bolsas de moradia: a USP disponibiliza apenas 1356 bolsas de auxílio moradia e 2703 vagas de moradia para o total de 88.000 estudantes.

As bolsas de auxílio moradia também têm um valor irrisório para a/o estudante que precisa se manter na Universidade (principalmente na Capital) e a situação piora quando tratamos de estudantes que são mães. A concessão do benefício de permanência também é feita de maneira suspeita, sem esclarecimento a respeito de quais são os critérios utilizados.

É necessário que o Movimento Estudantil construa uma proposta concreta de ampliação qualificada das políticas de permanência na universidade. Propomos a criação de um Fórum das Moradias, que se configuraria enquanto espaço privilegiado para articular e discutir propostas e encabeçar uma Campanha pela Permanência Universitária na USP, abarcando grupos e entidades para além do ME.

Essas considerações expressam que, para nós, reivindicar democracia na universidade vai além da exigência de uma revisão da estrutura de poder, mas significa, precisamente, o amplo acesso da população à universidade, a gratuidade ativa e a garantia de universidade de qualidade para o povo.

Mulheres na Universidade

A Universidade não está excluída do restante da sociedade e, portanto, não está imune às suas contradições, entre elas o machismo. A USP, portanto, ainda que seja considerada um “pólo de excelência”, reproduz e recria, desde a produção do conhecimento, até as políticas de permanência, o machismo e a misoginia.

Nesse sentido, é preciso que as mulheres se organizem também na Universidade. Em 2011, construímos ativamente o I Encontro de Mulheres da USP (EME), e participamos da Frente Feminista desde sua criação.

O EME foi um importante espaço para formulação política, articulação e ação das mulheres, sendo essencial para pensarmos coletivamente os problemas que as mulheres sofrem na Universidade, e mais: foi essencial para pensarmos em soluções para esses problemas.

O primeiro encontro tirou deliberações importantes, aprovadas também no XI Congresso dos Estudantes da USP. Essas deliberações devem ser levadas a cabo pela gestão do DCE, como campanhas contra trotes machistas, pelo aumento das bolsas de auxílio aos estudantes, além de uma campanha contra a violência sexista.

A pauta feminista é de suma importância, e deve ser levada adiante por todo o Movimento Estudantil, incluindo aí as entidades estudantis – DCE e Centros Acadêmicos -, não sendo, portanto, tratada como algo secundário.

Propomos, além de continuar a articulação da Frente Feminista, realizar também o II Encontro de Mulheres Estudantes da USP, para dar continuidade ao processo que se iniciou em 2011, de fortalecimento e ação unitária do Movimento Feminista na USP.

Diversidade sexual

Assim também em relação ao movimento LGBTT: devemos buscar os grupos que atuam na USP e que têm tido pouquíssima visibilidade. Vimos membros da atual gestão empenhados em divulgar o Encontro Nacional Universitário de Diversidade Sexual (ENUDS), mas não enquanto uma política do DCE. É preciso que essa seja uma política de gestão, e tocada pela Entidade, fazendo com que todo o Movimento Estudantil seja parte dessa pauta.

Comprometemos-nos a garantir discussões e a fortalecer os coletivos e grupos de trabalho que estudam gênero e sexualidade, além de outros temas que atravessam a vida universitária. O conhecimento sobre a história da USP e do movimento estudantil pode ser mais bem disseminado e fomentado através de debates abertos e de grupos de estudos e o DCE deve exercer um papel de articulador e divulgador desses grupos.

Gestão comunitária

No Conselho Universitário da USP os estudantes de graduação correspondem a 10% do total de docentes do CO, os de pós são 5% e há apenas três cadeiras para os servidores não-docentes. A USP está entre as universidades mais antidemocráticas do país, não respeitando sequer o artigo 56 da Lei de Diretrizes e Bases, segundo o qual a representação docente nos colegiados e na escolha de dirigentes não deve passar de 70% – e cada uma das outras categorias dispõem de 15%, como ocorre em 16 universidades federais. A UNIFESP e a UFMG são exemplos de universidades que adotam esse modelo.

Já outras 37 federais, como a UFSCAR e a UFRJ, estabelecem um terço de cadeiras para cada categoria.  No 4º Congresso da USP, com a participação de estudantes, professores e funcionários técnico-administrativos, foi aprovada a defesa desse modelo paritário nas instâncias deliberativas da universidade e das unidades. Há, portanto, um acúmulo que precisa ser resgatado, além dos variados exemplos de universidades que devem ser estudados para que tenhamos clareza do que desejamos ao propor uma mudança na estrutura da universidade. O GT Estatuinte, grupo que estuda a estrutura de poder na universidade a partir de atas, artigos, entrevistas e outros materiais, exerce um trabalho imprescindível no sentido de fundamentar nossas bandeiras.

A busca por ampliar a participação de estudantes e servidores nas instâncias de gestão da universidade e das unidades exige estudo e diálogo com as outras categorias. Não basta partimos do pressuposto de que o modelo paritário é um ideal óbvio para todos e repetirmos exaustivamente essa palavra de ordem.

O processo de escolha do Reitor evidencia a necessidade de mudanças. Além dos candidatos restringirem-se aos professores titulares (o mais alto grau da carreira acadêmica docente), o colégio eleitoral (que no primeiro turno congrega menos de 2% da comunidade universitária), cai para cerca de 0,3% no segundo turno, no qual os professores titulares representam cerca de 85%. Como se não bastasse, a decisão final é tomada pelo Governador do Estado, que escolhe entre a lista tríplice que lhe é enviada. Isso fere a autonomia universitária, pois o reitor será aquele com afinidades políticas e ideológicas com o Governo do Estado. Além disso, o fato de o governador ser aquele que escolhe o reitor não significa que há um “controle social” da Universidade, pois isso demandaria uma mudança de toda sua estrutura, que é extremamente conservadora.

Como no próximo ano teremos eleições para reitor, é imprescindível que o ME se articule com as demais categorias para se posicionar diante desta questão, através de um debate aprofundado de nossas estruturas e da reivindicação de ampliação da participação neste processo, atrelada à luta por uma estatuinte soberana.

Memória, verdade e justiça para democratizar a Universidade

Hoje, uma das pautas de maior destaque em toda a sociedade brasileira é a necessidade de recuperarmos nossa memória nacional do período da Ditadura Militar, através da Comissão da Verdade Nacional. Dentro da USP não é diferente. Nossa Universidade foi palco de inúmeros acontecimentos durante o período da Ditadura, com a cassação, eliminação, prisões, assassinatos, demissões e aposentadorias compulsórias de estudantes, professores e funcionários técnico-administrativos. Estima-se que dos aproximadamente 500 desaparecidos políticos durante a ditadura, 40 eram funcionários, professores ou alunos da USP, além da truculência ocorrida durante a invasão e depredação da Faculdade Maria Antônia e a invasão do CRUSP em 1968, com a prisão de mais de 800 estudantes.

Nesse sentido, faz-se necessária a criação de uma Comissão da Verdade da USP – campanha encabeçada pelo Fórum Aberto pela Democratização da USP, sobre o qual já falamos anteriormente -, para que esses acontecimentos sejam revistos, e os fatos investigados e apurados. Essa Comissão serviria para pensarmos também a estrutura de nossa Universidade, e como a forma como ela é hoje baseia-se num modelo autoritário de sociedade – como o regime disciplinar feito em 1972, que ainda hoje legitima e baliza processos e expulsões.

Uma Comissão da Verdade é, portanto, parte do nosso resgate nacional, coloca o povo brasileiro como sujeito histórico, protagonista das mudanças sociais, reivindicando seu direito de rever os fatos históricos, abrindo a possibilidade de construirmos um outro futuro.

A ampliação das discussões sobre modelos de gestão e o estatuto das instituições da universidade devem construir um processo estatuinte, apontando propostas concretas, como ocorreu no 4º Congresso da USP. Nesse sentido, também é urgente o empenho em organizar um novo Congresso da USP, junto aos docentes e funcionários.

A universidade para o povo

Por fim, ao defender o povo dentro da universidade, defendemos simultaneamente a produção de conhecimento para o povo, não para o mercado. A extensão sofre uma carência de popularidade na USP, pois rompe com a lógica atual de uma aprendizagem que se realiza apenas nas salas de aula. Vai além porque ela só se realiza enquanto tal quando conseguimos sair dos muros da universidade e aprender para além dela. Está além das perspectivas da sala de aula e dos objetivos das pesquisas acadêmicas. Quando falamos de extensão, falamos em rever o cotidiano e em lidar com o que é diário com outro olhar: o de estender nosso conhecimento e nossas técnicas e de reformulá-las coletivamente.

Colocar a Universidade em Movimento é colocar as demandas e os saberes populares na ordem do dia das produções e dos viveres acadêmicos, e no cotidiano de toda uma sociedade, que carece de perspectivas reais de mudança social, econômica e política, para sua real emancipação.

Os grupos de extensão que temos hoje têm um papel fundamental e devem ser estimulados. Afinal, também é com o apoio dos movimentos sociais da cidade e do campo que teremos mais forças para obter vitórias, e a extensão universitária é fundamental para estabelecer essa relação, entre a Universidade e os Movimentos Sociais. Dessa forma propomos e defendemos também a realização de uma Semana de Movimentos Sociais, abrindo um espaço para maior conhecimento de outras realidades e de outros grupos que também lutam por uma sociedade mais justa e igualitária, e para fomentar esse diálogo.

No que tange à educação no âmbito nacional, o novo Plano Nacional de Educação que está em debate no Congresso contém as diretrizes para a educação durante os próximos dez anos e versa sobre seu financiamento. Infelizmente, a proposta que está tramitando apresenta uma série de problemas. Além de abrir as portas para a privatização da educação, desconsidera critérios básicos para garantia da qualidade educacional, como o CAQ (Custo Aluno Qualidade) ou a diminuição de estudantes por salas de aula. No entanto, os 10% do PIB em investimento na educação, exigência do Plano elaborado pela sociedade civil desde a década de noventa, foram aprovados recentemente na Comissão Especial do Plano Nacional de Educação na Câmara. Somos favoráveis a essa pauta, e agora é preciso fazer pressão política e popular para que os 10% sejam efetivados.

A educação pública, gratuita e de qualidade é um direito inalienável, previsto na Constituição, e o Estado deve garanti-lo. Mesmo em um país rico como o Brasil, hoje sexta economia do mundo, ainda investimos muito pouco em educação (cerca de 5% do PIB). Em 2009, o governo gastou 44,93% de todo o orçamento da União com o pagamento de juros, amortizações e com a rolagem da dívida pública. Só em 2011, foram R$ 230 bilhões gastos em juros da dívida, o que torna injustificável argumentar que não há verbas para investir um total de R$ 450 bilhões em dez anos para a educação.

Lutamos por outra lógica para a educação no país: inclusiva, crítica, gratuita, pública e socialmente referenciada. Para isso, exigimos que o Plano Nacional de Educação garanta ao menos os 10% do Produto Interno Bruto nesta área. É nosso desafio enquanto movimento social pressionar o poder público em relação a essa questão e trazê-la para a discussão na sociedade civil.

Todas essas considerações devem ser tomadas como um desejo de mudança não só da universidade, mas de toda a sociedade. A reivindicação por mais moradias estudantis representa um ideal de melhores condições de habitação para todos os cidadãos. A luta contra o machismo, o racismo e a homofobia e pela desmilitarização da polícia militar são bandeiras dentro da USP e fora dela.

A desmilitarização da polícia foi, inclusive, uma recomendação do Conselho de Direitos Humanos da ONU para o Brasil no último mês de maio, pois os países daquele órgão entenderam que o Brasil deve combater a atividade dos “esquadrões da morte” da Polícia Militar. Acreditamos que essa instituição não exerce o papel de garantir a segurança da população. Pelo contrário, é um instrumento repressor, principalmente na periferia.

A recente ocupação da favela de São Remo, vizinha do Campus Butantã, evidencia a violência com que a polícia e o governo do estado de São Paulo tratam a camada mais pobre e negra da população. Neste caso também está presente uma pretensão higienizadora, como se viu na operação no bairro da Luz, do centro da Capital.  É preciso que o ME atue em conjunto com os movimentos que pautam esse debate, como o Movimento de Moradia e o Movimento Negro, bem como movimentos de direitos humanos, para termos uma dimensão maior sobre a questão.

Nesse sentido, também somos contra a censura e a punição à expressão política, cuja consequência na USP foram mais de 70 processos contra estudantes, e a eliminação/demissão por motivos políticos de estudantes e funcionários no último ano, cuja base legal é o decreto já citado antes, da época da Ditadura Militar, que não foi suprimido na reforma estatutária ocorrida no processo de democratização de nosso país.

Estudantes em movimento por um DCE em movimento!

Por todos esses motivos que elencamos, fizemos esta chapa. Queremos mudar a Universidade, e sabemos que isso só é possível através da nossa força, da nossa mobilização, através de muita gente atuando coletivamente. Por isso, é preciso que tenhamos uma entidade participativa no cotidiano dos estudantes, que dialogue com as entidades de base e consiga chegar, de fato, a toda USP. Mais do que centenas integrantes, temos muita vontade e um plano concreto de como colocar nossas ideias em prática, levando em consideração a quantidade de pessoas e a diversidade de realidades da USP. O Movimento Estudantil precisa se reformular, encontrar novas formas, construir-se de forma ampla e plural. Só dessa maneira conseguiremos construir a Universidade que está em nossos sonhos, em nossos desejos e em nossas necessidades.

Para todos juntos construirmos um novo tempo, a Universidade tem que estar em movimento!

 

Nota do Universidade em Movimento sobre o último CCA

O CCA (Conselho de Centros Acadêmicos), em tese, deveria ser um importante espaço de diálogo e troca entre os Centros Acadêmicos. Um espaço de construção coletiva dos rumos do movimento estudantil, entre aqueles que estão cotidianamente em contato com a realidade dos estudantes dos mais diversos cursos, da Letras à Engenharia de Produção. Infelizmente, o que vimos no último CCA passou longe disso.

Em primeiro lugar, houve a dificuldade de debater com o conjuntos dos CAs e dos estudantes devido à convocatória para o CCA – que veio na quarta-feira, para um debate que ocorreria no sábado. Decisões sobre temas muito importantes como o EnCA (Encontro de Centros Acadêmicos) e o XI Congresso tiveram simplesmente que sair da cabeça dos poucos diretores que estavam presentes, sem ao menos existir a chance de levar essas pautas para os estudantes de seus cursos anteriormente.

Em segundo lugar: a condução do CCA pouco prezou pelo debate e construção coletiva de idéias. Aqueles que estavam presentes puderam ver muitos CAs se abstendo em votações, justificando pela falta de tempo em debater as questões anteriomente; foram feitos, também, muitos pedidos de esclarecimento devido à maneira atropelada com a qual foram decididos determinados pontos.

Além de tudo, a data do XI Congresso (24 a 26 de agosto) foi proposta e aprovada sem nenhum debate profundo. Junto com ela, foi decidida também a data das eleições de delgados: de 11/06 a 19/08, ou seja, nas duas últimas semanas de aula do primeiro semestre e nas duas primeiras semanas de aula do segundo semestre. Qual a real viabilidade de uma eleição de delegados representativa durante as provas finais ou nas duas primeiras semanas de aula, sem nenhum debate prévio? A gestão Não Vou me Adaptar demostra que está menos preocupada com a representatividade desse congresso e mais preocupada em ter setembro e outubro livres para atividades próprias dos grupos da gestão – no caso, as eleições municipais -, sem levar em conta o coletivo e sem pensar nas consequências que isso pode ter para o ME.

Por último, mas não menos importante: A gestão Não Vou me Adaptar quer se perpetuar no DCE até 2013! No CCA de posse, nós, da Universidade em Movimento, quisemos propor a definição data das próximas eleições para o DCE. Achamos importante saber quando elas se realizariam, para que o movimento como um todo possa se organizar. Essa proposta ficou de ser avaliada no CCA seguinte (este do qual falamos, ocorrido no dia 05 de maio), mas, coincidentemente, não estava na pauta.

Por fim, acabamos discutindo de maneira breve a pauta no último CCA. A discussão chegou ao absurdo de integrantes da “Não vou me adaptar” afirmarem que, segundo o estatuto do DCE, a gestão deveria durar um ano, e que se fizéssemos eleições no final de 2012, estaríamos desrespeitando o estatuto; portanto, somente um Congresso de Estudantes poderia deliberar com relação a isso. Afirmaram, ainda que nós é que estaríamos querendo mudar as regras do jogo. A ata do CCA em que foi deliberado o adiamento das eleições é clara e explícita: “tal adiamento se dá em caráter extraordinário e delibera que a eleição para a diretoria de 2013 volte a dar-se no mês de novembro.”. Quem quer mudar as regras no meio do jogo é a gestão Não Vou Me Adaptar.

O último CCA deliberou que o próximo, no dia 20 de maio,  debateria o regimento do XI Congresso e faria um debate “não deliberativo” sobre a data das eleições do DCE. Essa informação não foi incluída na convocatória para a reunião; além disso, a convocatória saiu somente no dia 15,  4 dias úteis antes da realização do CCA. De novo, não é dado tempo suficiente para que os Centros Acadêmicos realizem um debate qualificado sobre as pautas..

Nós queremos que o DCE seja de todos os estudantes. Para isso, é preciso que a gestão pense para além dos próprios interesses.

Propomos, por isso, a revisão da data do Congresso. É preciso que pensemos em uma data que seja melhor para o Movimento Estudantil, e não para um grupo ou outro. Também mantemos nossa posição de que as eleições devem ser mantidas para novembro. Com isso, respeitamos a decisão do CCA que alterou a data das eleições, e continuamos respeitando o Estatuto do DCE, que, no ponto em que versa a respeito das eleições, aponta que é o CCA que deve deliberar sobre o processo eleitoral do DCE.

Balanço das eleições para o DCE e Representantes Discentes 2012 da USP

Antes de qualquer avaliação sobre as eleições, gostaríamos de agradecer a todas e todos que participaram do processo eleitoral para a diretoria do DCE e RDs de 2012, em especial, àqueles que fizeram campanha, se envolveram, apoiaram e depositaram um voto de confiança na Universidade em Movimento. Sabemos que esse voto representa confiança em nosso programa e, principalmente, na prática cotidiana que desenvolvemos no movimento. Foram 2579 votos, com votações expressivas em diversos lugares (vencemos em 9 cursos e em 3 Campi). Agradecemos e vamos além: mantemos o convite para a construção de um movimento baseado na legitimidade da maioria, a partir das entidades de base (Centros Acadêmicos, Secretarias Acadêmicas, Centrinhos de Curso etc.), que reflita sobre as próprias práticas e tenha foco no debate político aberto. Só assim podemos garantir o crescimento e fortalecimento das nossas lutas. A eleição é apenas mais um capítulo. Para a Universidade em Movimento, todos devem continuar em cena, participando e crescendo na pluralidade, pois é aí que estão a nossa força e a nossa voz para mudarmos a Universidade.

Sabemos que hoje a USP passa por graves ataques, que ameaçam tanto seu caráter público, quanto os que se colocam em sua defesa. Sem dúvida, uma eleição com o maior quórum dos últimos anos e uma expressiva votação (mais de 10 mil votos) em chapas que abertamente defendiam o “Fora Rodas” foi uma importante resposta. Esses votos trazem consigo a luta por democracia na USP, contra a repressão política expressa na PM e, enfim, a luta por outro projeto de Universidade, que não o do Reitor Interventor e seu José Serra. Além disso, o resultado das eleições demonstrou que a chapa Reação, que trazia em seu programa grande acordo com a gestão Rodas, não teve viabilidade eleitoral e que seu discurso, em favor dos projetos da reitoria, não repercutiu entre os estudantes.

Durante as eleições, buscamos fazer frente a este projeto, desejado pela reitoria e pelo governo do PSDB para a USP. Esse projeto, implementado de maneira mais agressiva pela gestão Rodas, traz, por um lado problemas estruturais e de gestão da universidade, como a falta de professores, salas de aula superlotadas, estrutura administrativa que prioriza interesses privados em detrimento da participação da sociedade e uso do dinheiro público para fins particulares. Por outro, ao invés do diálogo, vemos a repressão de quaisquer movimentações políticas, através de prisões, processos, expulsões e grandes operações policiais. Assim, caminhamos para uma USP cada vez menos voltada aos interesses da sociedade e que abriga uma pluralidade cada vez menor de opiniões, minando a reflexão crítica e coletiva, fundamental para a universidade.

Para a Universidade em Movimento, porém, além de identificarmos tal projeto e propormos uma alternativa pública e democrática a ele, precisamos criar as condições para vencermos esta batalha. Isso passa por identificar os erros de nosso movimento e nos reinventarmos. Assim, nossa opção foi, durante a campanha, também pautar outra maneira de construir o movimento estudantil, através de novas práticas, que fortaleçam o movimento como um todo e não apenas um ou outro grupo. Acreditamos na necessidade das Entidades de Base serem protagonistas do movimento, para que cada vez mais estudantes participem, como também acreditamos na necessidade da unidade, baseada no respeito e na confiança.

Nosso maior objetivo é transformar a USP, invertendo suas prioridades, a fim de colocá-la a serviço dos interesses mais amplos e legítimos da população, e só conseguiremos isso com um movimento forte e legitimado entre os estudantes.

Entretanto, nossa opção por criticar os métodos hegemônicos do movimento nos rendeu muitas acusações. Segundo nossos adversários, levantar tais problemas fortaleceria os nossos maiores inimigos, identificados não só na Reitoria, mas também na chapa Reação durante o processo eleitoral. Para nós, por outro lado, não tocar nesses problemas é o que realmente fortalece o sentimento anti-movimento estudantil e impede que nos tornemos mais fortes na nossa luta. Reconhecer os problemas do movimento e propor mudanças para superá-los é essencial para que caminhemos no sentido das conquistas e vitórias.

Entendemos a eleição do DCE como momento fundamental, não apenas por se tratar da escolha da futura gestão da entidade, mas principalmente pelo debate em torno das propostas e avaliações do movimento. Infelizmente, nessas eleições, o debate político foi esvaziado e a política genérica “para a direita não ganhar” se sobressaiu, mesmo quando esse setor não tinha chance alguma.

Inclusive, entendemos que a chapa Reação representou nessas eleições muito mais um sentimento anti-movimento, que um acordo com o projeto implementado pela reitoria. Muitas vezes, esse voto representa mais uma insatisfação com o funcionamento do movimento do que um voto ideologicamente aliado à direita e à gestão Rodas. Atribuir à “chapa da Direita” todas as ameaças ao movimento estudantil e crer que a derrotando teremos automaticamente todas as soluções para nossos problemas é, no mínimo, ilusório. Além disso, isenta o movimento de fazer uma autocrítica qualificada e urgente de suas últimas experiências e de pensar nos motivos reais que levaram ao fortalecimento destes setores que preferem apostar no fim do movimento ao invés da superação de seus problemas. Ainda mais porque a “direita” só cresce e tem eco porque o próprio movimento tem criado o rechaço da maioria dos alunos. E a causa é a maneira como o movimento vem sendo construído, favorecendo a autoconstrução dos grupos, não dando condições para o protagonismo das Entidades de Bases e ignorando as demandas dos estudantes. Derrotar eleitoralmente a Reação é uma conquista de todo o movimento estudantil e um passo importante, porém pequeno perto do desafio de barrar o projeto em curso na nossa Universidade.

Essa lógica hegemônica no movimento estudantil, que só faz abrir espaço para o conservadorismo, foi expressa também durante a apuração das eleições. Lamentamos profundamente o comportamento dos companheiros da chapa “Não Vou Me Adaptar” nessa ocasião. As palavras de ordem servem para dar voz ao movimento quando ele vai unido para a rua se manifestar. Porém, neste caso foram utilizadas de maneira provocativa, desrespeitosa e personalista. Tratou-se de uma agressão gratuita, de quem confunde unidade com adesão, voto com propriedade, entidade com grupo e adversário com inimigo. Essa crítica não pode deixar de ser feita, porque é justamente o prevalecimento desse tipo de prática no interior do movimento uma das principais causas do nosso isolamento e das derrotas que temos sofrido. Tal comportamento – que não foi exclusividade do momento da apuração, ocorreu em toda a campanha – contrasta inclusive com o discurso que os companheiros fizeram quando passavam em sala durante a campanha, em que se colocavam como a expressão da unidade do movimento.

Esperamos que a nova gestão se esforce para mudar esse tipo de prática e tenha sucesso. É fundamental que ela seja construída de maneira coletiva e potencialize os legítimos espaços dos estudantes, Estaremos ativamente envolvidos na construção do movimento, da mesma forma como estaremos dispostos a contribuir com a gestão e fazer a crítica de forma construtiva, sempre que necessário. Consideramos fundamental que o DCE garanta a realização do Encontro de Centros Acadêmicos (EnCA) e de Conselhos de Centros Acadêmicos (CCAs) mensais, assim como esperamos que o XI Congresso dos Estudantes da USP, o mais importante espaço deliberativo do movimento, seja construído.

Pelo fim do convênio USP-PM e da repressão e criminalização dos movimentos sociais! Pelo fim dos processos criminais e administrativos! Pelo fora Rodas! Por uma estatuinte livre e soberana! Por um movimento amplo, de estudantes, professores e servidores técnico-administrativos. Por uma universidade mais mulher, mais negra, mais popular, mais democrática, mais participativa e transformadora. Por tudo isso, seguiremos na política de colocar a Universidade em Movimento!

Esclarecimento a respeito de pronunciamento da chapa Universidade em Movimento no debate entre chapas do DCE organizado pelo CAF – Centro Acadêmico de Filosofia, da FFLCH.

Nós, da chapa Universidade em Movimento, vimos por meio desta nota esclarecer nossa posição a respeito do que foi dito no debate entre chapas organizado pelo CAF.

Felizmente – porém não graças à maioria das chapas – a discussão a respeito da situação da mulher dentro e fora da Universidade vem permeando grande parte dos últimos debates entre chapa.

No último, fizemos uma pergunta relativa ao assunto à chapa Não Vou Me Adaptar, tendo em vista que em sua carta programa reivindicam a Frente Feminista e a luta contra opressões em geral.

Perguntamos: 1) Como eles iriam construir a Frente Feminista se os setores que compõem a chapa não a construíram e praticamente não construíram o I Encontro de Mulheres da USP; 2) Se tal posição era fruto de uma auto-crítica, tendo em vista o item 1; 3) Como iriam construir a luta contra as opressões se em lugares como São Carlos, setores da chapa Não Vou Me Adaptar (mais especificamente o MES (Movimento Esquerda Socialista, ou Juntos!), uma das correntes do PSOL) conseguem votos justamente com apoio de estudantes da Atlética e do GAP (Grupo de Apoio à Putaria), grupos que organizam o Miss Bixete durante a calourada.

O Miss Bixete é um evento em que se contrata uma prostituta para ficar em cima do palco do CAASO (Centro Acadêmico que representa o campus de São Carlos) com uma camiseta escrito “Arquitetura” (já que é o curso com mais mulheres, e um dos primeiros a boicotar o Miss Bixete), coagindo calouras a fazerem como ela e tirarem a camiseta.

O Coletivo de Mulheres do CAASO, o qual temos muito orgulho de construir – mas que é sumariamente ignorado e boicotado pelas e pelos companheiros do MES -, já faz, há pelo menos 4 anos, intervenções no Miss Bixete. Este ano, uma das intervenções foi com uma música, que dizia “a cada 20 segundos, uma mulher é espancada”.

Citamos essa música pois a resposta que se ouviu dos estudantes que participavam do Miss Bixete foi: cantavam a mesma música, e logo em seguida davam tapas na bunda de colegas.

Nesse sentido, temos certeza que é extremamente importante, e nosso dever enquanto feministas, que cobremos coerência das companheiras e companheiros, que se dizem de esquerda, e que se dizem os melhores para estar à frente de nosso DCE no ano de 2012.

Para além desses fatores, quando foi feita a pergunta no debate entre chapas, recebemos a seguinte resposta do debatedor da Não Vou me Adaptar: “nossa luta prioritária é contra a direita, depois discutimos outras questões”. Caso haja alguma dúvida, ao menos 100 pessoas estavam lá no momento e escutaram tal declaração.

Nós sabemos que muitos grupos de esquerda secundarizam a pauta feminista, que a colocam com uma pauta menos importante frente ao “mal maior” (a luta de classes – como se uma coisa estivesse separada da outra). Nunca imaginamos que escutaríamos isso com todas as letras, com tanta clareza, e de maneira tão cínica, de militantes que dizem lutar pelos direitos das mulheres.

Como se dá a luta contra a direita, afinal? Da maneira como falam, não lutaremos por nada que não seja o combate abstrato à direita que tanto pregam. Não lutaremos por permanência estudantil, porque isso não é, teoricamente, combate à direita. Não lutaremos por cotas raciais e sociais porque isso não bate diretamente na direita.

O que bate na direita, então?

A luta pela descriminalização e legalização do aborto, contra a Frente Parlamentar contra o Aborto, não é uma luta contra a direita? Não é uma forma de combate aos setores mais conservadores e retrógrados de nossa sociedade?

Como esse grupo, que se diz de esquerda e inserido nas lutas sociais, pretende combater a direita se não consegue aplicar esse programa de combate na realidade concreta do povo brasileiro?

Agora, estamos sendo acusados de calúnia. Dizem que afirmamos que o MES contratou prostitutas em São Carlos (uma militante do MES, inclusive, após o debate, foi atrás da debatedora da UeM ameaçá-la, aos gritos, afirmando isso, tendo nossa militante que ser praticamente escoltada). O que dissemos foi que a chapa Não vou me adaptar é eleita COM APOIO dos grupos que organizam o Miss Bixete. E isso, companheiros, não é uma calúnia, é uma realidade.

Dizem, agora, que esse “não é um debate político”. Gostaria que nos dissessem o que é mais político do que debater com base na realidade. Não adianta nada lermos tudo o que foi escrito sobre feminismo se não conseguimos aplicá-lo em nossa realidade.

Infelizmente, o que vemos por parte do grupo criticado não é nenhuma ação referente ao combate ao machismo. Para além da não participação nos espaços da Frente Feminista, o CAASO (do qual o MES/Juntos! é parte da diretoria) ainda cedeu seu espaço para a realização do Miss Bixete e criticou o Coletivo de Mulheres por fazer intervenções no evento. Para nós, se não há combate, compactua-se. E, para nós, compactuar com o machismo é compactuar com a direita que tanto dizem combater.

Esperamos, com essa nota, esclarecer nossa colocação no debate entre chapas, e evitar distorções oportunistas que têm como objetivo único despolitizar o debate e colocar o setor criticado como “coitado”.

O debate feminista é prioritário para nós, e ele é, sim, político; e, se depender de nós, ele continuará a ser feito exaustivamente, até que consigamos extinguir o machismo de nossa sociedade, dentro e fora da esquerda.

Universidade em Movimento

Como combater a direita no Movimento Estudantil?

Muito se tem falado sobre como devemos deixar as “disputas fratricidas” de lado e prezar pela unidade neste momento das eleições para que não deixemos que a direita vença. De fato a unidade é necessidade urgente, no movimento estudantil e para além dele, assim como é certo que não queremos uma gestão do DCE que represente os interesses da Reitoria e do governo de SP e não dos estudantes. Entretanto é importante que nos aprofundemos sobre a questão, para desmistificamos o argumento do “voto útil conta a direita”.

A primeira coisa que nos perguntamos, é: por que deveríamos fazer voto útil na chapa “Não vou me adaptar” para barrar a direita se a causa de seu fortalecimento é justamente a prática de grupos como os que compõem a chapa?

O argumento apresentado para justificar a “unidade” é a necessidade de barrar a direita nas eleições. Ora, se queremos realmente barrar a direita, é preciso que façamos isso politicamente e não apenas eleitoralmente. Vale lembrar que no último período, o que prevaleceu não foi o trabalho de base e fortalecimento das entidades e do movimento, mas o sectarismo e a autoconstrução. Não foi também a construção de atividades unitárias do movimento como o Encontro de Centros Acadêmicos (EnCA) e o Encontro de Mulheres Estudantes (EME), mas a priorização de pautas e espaços que serviam apenas aos grupos. De que serve combater a direita nas urnas se não o fizermos ao longo do ano, construindo o movimento?

O suposto perigo de a direita ganhar o DCE justificaria a incoerência de uma unidade meramente eleitoral. No entanto, a direita já esteve mais forte (em 2009, quando realmente quase levou as eleições) e nenhum dos grupos, que hoje clamam pela unidade, levantaram essa questão. Esse argumento não tem base real. Trata-se de um discurso repetido à exaustão de maneira a esvaziar o conteúdo político do debate. Uma tentativa de generalizar um sentimento de medo, a fim de fazer passarem batidas as falhas do movimento e a incoerência dessa aliança.

Como afirmamos em nossa resposta ao chamado de unidade, a direita cresce no movimento estudantil porque há um vazio político deixado pelo DCE. Isso acontece porque, infelizmente, a maior preocupação das últimas gestões tem sido a de construir os grupos que as compunham. Em 2009, o PSTU (“A USP que queremos”, mas, na época, “Nada Será Como Antes”), não poupou esforços em construir o CNE – Congresso Nacional de Estudantes -, que fundou a ANEL, campo político do partido. Aliás, vale lembrar que o mesmo grupo, enquanto gestão do CAELL – Centro Acadêmico do curso de Letras -, não fez outra coisa a não ser autoproclamar-se, a ponto de muitos estudantes pensarem que a ANEL e o CAELL eram a mesma coisa. Nos outros anos, mas principalmente em 2011, o MES – agora “Juntos!” – não poupou esforços em fazer propaganda de si próprio. Enquanto DCE, convocaram diversas atividades (como o “15.O”), porém, iam às atividades enquanto “Juntos!”. Assim, o DCE simplesmente desaparecia no meio das camisetas e cartazes do grupo.

Apesar de prezar pela unidade, tais grupos não se preocuparam também em realizar uma atividade de divulgação da chapa no mesmo momento de uma atividade da Calourada Unificada, outro espaço do movimento estudantil, que deveria ser unificado.

Outra causa do fortalecimento da direita é a forma espontaneísta e inconsequente de atuação de alguns setores do movimento estudantil, que compõe ou compunham a “27 de Outubro”. Esta forma de atuação não faz nada além de dividir o movimento e dar mais forças para a reitoria nos atacar. Acham que a única saída é a ação direta e acabam por tomar atitudes suicidas, como votar greve em assembleias de curso esvaziadas, ou a própria ocupação da Reitoria, com o movimento rachado.

Ante a ameaça da direita, temos uma alternativa: o trabalho de base, o fortalecimento das entidades estudantis (CAs, DCE) e de seus fóruns. Desde o início de nossos debates, que culminaram na formação da chapa Universidade em Movimento, é o que temos pautado. É fundamental nesse momento sermos capazes de coesionar o movimento e somar forças para fazer frente aos ataques da reitoria. Todos afirmam serem contra o sectarismo e que é preciso unidade no movimento. Pois bem, isso se faz na prática, não com chamados ou manifestações de “apoio crítico” completamente vazias de conteúdo político.

Ignorar que existe um problema no movimento estudantil seria, mais uma vez, empurrar a situação com a barriga. Derrotamos a direita nas urnas agora e, no próximo ano, ela estará mais forte. A solução não está nas urnas: é preciso que acabemos com os vícios do movimento estudantil, que têm sido os maiores responsáveis pelo fortalecimento da direita.

Estamos aqui para fazer um movimento com todos. Um movimento que mobilize maiorias, e não que mobilize minorias. Estamos contra a Reitoria e contra a Reação, mas para essa luta precisamos ir pra além de um movimento que mobiliza apenas vanguardas, incapaz de massificar as lutas.

Nossa chapa conta com membros e apoiadores em vários campi da USP. Temos condições reais de ganhar as eleições e vamos lutar para isso. Não somos um agrupamento composto por interesses meramente eleitorais. Mais do que isso, nosso objetivo é contribuir para uma outra lógica de movimento estudantil, forte, coeso, pautado pelos estudantes, que acumule vitórias e não derrotas. Só assim conseguiremos fazer frente aos desafios impostos.

Um projeto de Universidade

Muito se tem falado sobre os acontecimentos da Universidade: fechamento de cursos, diminuição de vagas, estudantes sendo processados, funcionários terceirizados sem receber, cursos pagos, cursos à distância… mas a grande questão é: o que uma coisa tem a ver com a outra?

Muitos já ouviram inúmeros alunos, professores e funcionários afirmando que se trata de um “projeto de universidade”, mas que projeto é esse?

Bom, para isso, é preciso que façamos uma breve reflexão sobre as políticas educacionais mundiais, para depois passarmos às políticas brasileiras e do Estado de São Paulo em específico. Comecemos citando Libâneo, Oliveira e Toschi:

“As atuais políticas educacionais e organizativas devem ser compreendidas no quadro mais amplo das transformações econômicas, políticas, culturais e geográficas que caracterizam o mundo contemporâneo. Com efeito, as reformas educativas executadas em vários países do mundo europeu e americano, nos últimos 20 anos, coincidem com a  recomposição do sistema capitalista mundial, o qual incentiva um processo de reestruturação global da economia regida pela doutrina neoliberal. Analistas críticos do neoliberalismo identificam três de seus traços  distintivos: mudanças nos processos de produção associadas a avanços  científicos e tecnológicos, superioridade do livre funcionamento do mercado na regulação da economia e redução do papel do Estado”.(LIBÂNEO, OLIVEIRA, TOSCHI,  2008, p. 33)

Existem inúmeras organizações internacionais responsáveis pelas diretrizes educacionais tomadas pelos países, como a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional (FMI), Unesco, entre outras. Essas diretrizes estão afinadas com o discurso neoliberal, discurso este que tem como principal ponto a diminuição da presença do Estado na  regulação da vida social, ou seja, dos serviços públicos. Dentre eles, a educação.

Nesse contexto, de políticas neoliberais, é que foram elaborados a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996 (LDB/1996) e o Plano Nacional de Educação (PNE), além das diretrizes curriculares, normas e resoluções do Conselho Nacional de Educação (CNE), e  é  nesse contexto que devemos analisar os não tão recentes acontecimentos da Universidade de São Paulo.

O Brasil tem sua guinada neoliberal com o governo Collor (1990 – 1992), e seu ápice com os governos FHC (1995 – 2003). Apesar do grupo deste último [1] haver perdido as eleições no âmbito federal, continua suas políticas neoliberais de educação no âmbito estadual, em São Paulo, principal reduto político do grupo. Na USP, essa política é colocada principalmente pelo discurso de “modernização da universidade”, adotado principalmente por nosso atual reitor, João Grandino Rodas.

A “modernização” contida no discurso da reitoria baseia-se principalmente em 1) flexibilização de captação de recursos financeiros, que se dá pela intensificação da proliferação de fundações; criação de cursos pagos, processo que se iniciou com a criação de curso de administração com mensalidade em torno de R$2.000, da FIA; 2) terceirização de quadros de funcionários, como os da limpeza; 3) priorização de cursos com interesses empresariais; 4) adaptação de cursos de baixo interesse empresarial às “regras do mercado”, como a criação de matéria de “História Empresarial” na FFLCH ou mesmo redução de vagas de alguns cursos para “criação de demanda”; 5) cursos à distância, pregando uma suposta “inovação tecnológica” a serviço de uma suposta “democratização do ensino”

Em um primeiro momento, esses fatores podem ser vistos, ingenuamente, com bons olhos, porém, trata-se de um cavalo de tróia que mina os fundamentos da gratuidade e autonomia da escola pública, inclusive assinando em baixo de práticas que vão na contramão dos direitos trabalhistas, como é a terceirização, esquivando-se da responsabilidade em sua administração (tal qual a ausência do Estado pregada pela ideologia neoliberal).

“As reformas liberais da educação são, portanto, duplamente guiadas pelo papel crescente do saber na atividade econômica e pelas restrições impostas pela competição sistemática das economias. As reformas que, em escala mundial, pressionam para a descentralização, para a padronização dos métodos e dos conteúdos, para o novo “gerenciamento” das escolas, para a “profissionalização” dos professores, são fundamentalmente “competitivity-centred”. A escola que antigamente encontrava seu centro de gravidade não somente no valor profissional mas também no valor social, cultural e político do saber, valor que era interpretado, de resto, de maneira muito diferente segundo as correntes políticas e ideológicas, está orientada, pelas reformas em curso, para objetivos de competitividade que prevalecem na economia globalizada. Deve-se medir bem a ruptura que se opera. A escola, na concepção republicana, era o lugar que devia contrabalançar as tendências dispersivas e anômicas de sociedades ocidentais cada vez mais marcadas pela especialização profissional e a divergência de interesses particulares. Ela era principalmente voltada à formação do cidadão, mais do que à satisfação do usuário, do cliente, do consumidor”. (LAVAL,  2004, p. XIII)

O reitor é um preposto do governo do estado com o fim de aplicar as políticas do grupo no poder. Não podemos esquecer que a USP tem certa autonomia frente ao governo do Estado, por isso, é necessário que o grupo governante tenha um agente afinado às suas políticas dentro dela, alguém que não hesitará em violar os princípios históricos do que seja uma universidade em função da aplicação do projeto neoliberal de educação de seus patrões. Porém, o reitor não é o único encarregado pela implantação dessas políticas na Universidade. O Conselho Universitário (CO) é formado, em grande parte, por professores favoráveis a esse projeto, além de existirem, na universidade, outros setores que compactuam com esses ideais, por diversas razões, que vão desde afinidade ideológica até o mais raso oportunismo.

Tudo isso demonstra, desde o nível internacional até o nível local, a importância de se contrapor a esse projeto, criado por um grupo fanaticamente neoliberal, que não atende a interesse algum a não ser o de seus integrantes e agregados. Na USP, contrapor-se a esse projeto significa combater as reformas que João Grandino Rodas e seus sequazes insistem em patrocinar, seguindo as diretrizes de seus patrões do Governo de São Paulo.

Notas:

[1] Aqui, optou-se por não citar o partido do ex-presidente (PSDB) por entendermos que o grupo responsável pela implementação desse projeto neoliberal é muito mais amplo. Outros setores, direta ou indiretamente, participam desse processo, constituindo um grupo inclusivo multifacetado.

Bibliografia consultada:

LAVAL. Christian. A escola não é uma empresa – o neoliberalismo em ataque ao ensino público, Editora Planta, 2004.

LIBÂNEO, José Carlos; OLIVEIRA, João Ferreira de; TOSCHI, Mirza Seabra. Estrutura e Organização da Educação Brasileira, São Paulo, Cortez, 2008

Maria Júlia é estudante de Letras na FFLCH/USP

Os rumos do Movimento Estudantil na USP – Um balanço sobre a mobilização estudantil iniciada em 2011

Escrevemos este texto para compartilhar um pouco da avaliação que fizemos coletivamente no Universidade em Movimento sobre os acontecimentos do último ano (em especial dos últimos meses) na USP.

Apesar da USP sempre ter tido problemas, o ano de 2011 teve suas peculiaridades, que se iniciaram na Universidade literalmente desde a chegada de Rodas à Reitoria, tendo sido eleito em segundo lugar na lista tríplice, algo que não ocorria desde a Ditadura Militar.

Rodas também conseguiu desarticular as categorias (estudantes, professores e funcionários) de maneira magistral, acabando com a paridade salarial entre categorias, dando bônus, e perseguindo politicamente os mais engajados. Rodas de fato administra a USP como se fosse sua fazenda, fazendo nela o que bem entende: constrói e demole prédios onde quer, permite a entrada da PM… Recentemente, ganhou da amicíssima revista Veja o título de “Xerifão da USP”. Aceitou o elogio: mandou colocar no site oficial da universidade.

Em resposta à ação violenta dos mais de 400 policiais na desocupação da reitoria – que pode ser encarada como um grande resumo da gestão truculenta, oligárquica e autoritária do Xerifão da USP -, o Movimento Estudantil (ME) deu sua resposta: uma greve, atos com 6 mil pessoas na rua, milhares presentes em diversas assembleias em muitos cursos, em diversos campi. A resposta foi um movimento que conseguiu se expandir para além da FFLCH, para além do Butantã. Afinal, apesar de a greve ter se concentrado basicamente na FFLCH, ECA e FAU, quase todos os cursos do Butantã realizaram debates sobre o assunto, assim como quase todos os campi da USP. Muita gente que estava alheia aos acontecimentos começou a se envolver e participar dos debates e atos. Mesmo aqueles que não chegaram a participar, seja de dentro ou de fora da universidade, passaram a olhar para o ME da USP, para o bem o para o mal.

Este, no nosso balanço, é o principal aspecto positivo dos últimos meses: o movimento aumentou. Isso é importante justamente porque é no número de pessoas que conseguimos envolver que reside a força do movimento estudantil. Quanto mais gente participando e apoiando, mais força temos.

Porém, mesmo crescendo, o movimento vem sofrendo derrotas, e muito sérias. A prisão de 73 estudantes na reintegração de posse da reitoria, a expulsão de outros 6, o processo de reintegração de posse da moradia retomada e do espaço de vivência do DCE são ofensivas concretas da reitoria no sentido de criminalizar e coibir as ações dos estudantes, e ela não tem recuado.

A reitoria atacou em período de férias, quando o movimento naturalmente tem dificuldade em dar respostas, mas não é esse o motivo que explica estarmos sofrendo derrotas. A mais brutal de todas, por exemplo, a prisão dos 73 na ocupação da reitoria, ocorreu não só enquanto estávamos em aulas, mas no meio de todo esse processo de mobilização. Julgamos de primeira importância termos isso claro: não conseguimos em nenhum momento fazer com que a reitoria recuasse. Pelo contrário, as medidas de repressão têm se intensificado, e de uma forma que há muitos anos não acontecia.

É preciso lembrar, ainda, que o quadro que enfrentamos na USP não está desconectado do resto da sociedade: o governo paulista, que através de seu reitor coloca 400 policiais e cavalaria para resolver problemas internos da universidade, é o mesmo que leva a cabo a política higienista na Cracolândia e a reintegração de posse do Pinheirinho, com 2 mil policiais, que resultou até em moradores mortos. Os problemas de moradia, saúde pública e ensino, que a princípio são de responsabilidade do Estado, são todos tratados de uma só forma por Alckmin e seus partidários: como caso de polícia.

O precedente que as ações aqui na USP abrem para que as punições e perseguições aos movimentos das demais universidades no Brasil sejam disseminadas e banalizadas é gravíssimo para o Movimento Estudantil, e devemos ter plena noção disso. O respaldo que isso muitas vezes tem na opinião pública, com ajuda de uma mídia que tem lado, torna a situação ainda mais preocupante.

Mas por que, se conseguimos incorporar tantos estudantes, continuamos a ser atacados e a sofrer derrotas? Além da ação da reitoria e do governo estadual, do apoio midiático com que contam etc., é necessário também entendermos que erros graves que permeiam o próprio movimento nos impedem de avançar.

Problemas gerais do movimento e a polarização

Muitos problemas estão presentes no ME da USP: extremo clima de beligerância entre os setores, rixas, denuncismo, autoproclamação etc. A priorização, por parte de muitos, da autoconstrução de suas organizações em detrimento da construção do movimento leva à exaltação das disputas internas e afasta muitos estudantes das assembleias e outros espaços do movimento. Isso acaba sendo um tiro no nosso próprio pé, pois quem ganha com essas atitudes é a direita, a reitoria e o governo do Estado, que nos querem enfraquecidos. Esses são, portanto, vícios que devem ser combatidos.

Mas as diferenças de concepção e opinião no como fazer as coisas existem, e isso é inevitável. E toda a mobilização e greve iniciadas no final de 2011 foram permeadas por uma polarização bastante clara, que correspondeu genericamente a dois setores: um que defendia as propostas aparentemente sempre mais radicais, como as ocupações, e outro que enxergava a necessidade de mais cautela para que fosse possível o diálogo com o restante dos estudantes e da sociedade. Embora não de forma mecânica – nem todos se encaixam, necessariamente, de um lado ou de outro –, essa divisão corresponde bem nitidamente a dois agrupamentos, que coincidem com duas chapas formadas para a eleição para o DCE: a chapa 27 de Outubro (composta por LER-QI, MNN, PCO, POR, Práxis e independentes), “mais radical” (tanto é que se autodenominam usando a data do confronto que deu início a toda a mobilização); e a Não Vou Me Adaptar (MES/Juntos!, CSOL/Barricadas e Rosa do Povo/Domínio Público, que são setores da até então gestão do DCE, mais PSTU e independentes), os “mais moderados”.

O setormoderado

Os setores correspondentes à Não Vou Me Adaptar apresentaram propostas importantes, como a proposição do plano alternativo de segurança. Já que a justificativa da reitoria para colocar a PM no campus era a falta de segurança, entrar neste debate significava mostrar que havia outras formas reais de deixar o campus seguro, e que a presença da PM significava a intenção de tratar os conflitos políticos internos da universidade como caso de polícia. Esta pauta, proposta pela Não Vou Me Adaptar, era, portanto, uma importante forma de dialogar com os estudantes, que poderiam estar convencidos da presença da PM no campus pelo argumento da segurança, e ganhá-los para o nosso lado.

Entretanto, esses setores entraram em choque com boa parte dos estudantes envolvidos nas mobilizações, radicalizados pela situação (PM no campus e extremo autoritarismo da reitoria), e que passaram a enxergar o DCE, no qual o setor em questão estava identificado, como inimigo. A cautela – a objeção às formas diretas de luta, como as ocupações – passou a se confundir com imobilismo. E para isso o outro setor, o 27 de Outubro, também contribuiu: tratou de denunciá-los e de acusá-los de “traidores do movimento” desde o início, inclusive de formas caluniosas, como com a história de que “o DCE entregou os estudantes [pegos fumando maconha] para o camburão da polícia” (veja a nota de esclarecimento dos três estudantes  envolvidos). Chegaram a afirmar que o DCE, PSOL e PSTU estavam do lado da reitoria, do governo do PSDB e da PM – o que, para dizer o mínimo, não está lá muito próximo da realidade.

Mas o fato é que a pecha de “traidores do movimento” pegou entre muita gente. Por que isso ocorreu? Cabe aqui um uma observação: neste ano, em que a PM entrou de vez no campus, o autoritarismo da reitoria, através das mais diversas medidas, não tem precedentes. A conjuntura da USP em 2011 requeria uma resposta radicalizada do movimento. E ela ocorreu, com ou sem a gestão do DCE.

Ao contrário disso, a gestão de 2011 realmente nada ou muito pouco fez em relação à construção da luta contra a política e o autoritarismo da reitoria. Ao longo do ano, realizou muito pouco trabalho de articulação com os Centros Acadêmicos, base da organização do movimento, não esteve presente na organização do Encontro de Centros Acadêmicos, nem no I Encontro de Mulheres da USP (dos quais tampouco participaram os setores “radicais”, por não serem ações diretas). E, principalmente no segundo semestre, optou por construir pautas que diziam respeito muito mais aos grupos representados na gestão – alguém lembra do “15-O” e o “Fora Ricardo Teixeira”? – do que a construção da luta contra as ações da reitoria, que era o que do movimento precisava naquele momento.

Assim, quando três estudantes foram pegos pela polícia fumando maconha e um enorme protesto dos estudantes contra a PM e a política autoritária da reitoria foi desencadeado, a gestão do DCE não havia contribuído em praticamente nada nessa discussão e tampouco era referência para os estudantes. Com uma postura moderada quando a situação exigia radicalidade, e em choque com uma base radicalizada, não foi tão difícil colocar-lhes a pecha de “traidores do movimento”. Erro tático: ou a Não Vou Me Adaptar não soube compreender o quão latente era o sentimento anti-reitoria entre os estudantes e que o momento pedia pela radicalização (o que, convenhamos, não era tão difícil de captar), ou estava preocupada demais com outros assuntos, como a autoconstrução de seus grupos e o calendário eleitoral que se aproximava.

Essa é a lógica que tem predominado nos últimos anos, de conquista das entidades voltada para a autoconstrução dos grupos que estão nela. Esse foi o motivo básico pelo qual saímos do grupo da última gestão (muitos de nós defendiam que a pauta prioritária do DCE para este ano fosse, desde o início, o Fora Rodas, e não o 15-Oou Fora Ricardo Teixeira) para formar o Universidade em Movimento. E é por isso que os estudantes não têm enxergado as entidades como referência do movimento. Ao contrário, as entidades têm sido vistas cada vez mais como inimigas do movimento. Pensamos que isso deve ser seriamente revisto por aqueles que atuam no movimento estudantil da USP, e os setores da Não Vou Me Adaptar, a nosso ver, definitivamente não têm compreendido a importância que tem uma entidade como o DCE enquanto articuladora e unificadora dos estudantes.

Ao DCE cabe articular os Centros Acadêmicos, que têm o contato direto com a base e são os organizadores e os alicerces do movimento cotidiano, bem como se aproximar dos demais setores, como o Sintusp, a Moradia Retomada etc (por mais que se tenha diferenças com eles). Todos os setores que estão em movimento devem tomar parte na sua direção. Menos fragmentados, ficamos muito mais fortes, e não se trata de romantismo. O que não é possível é que apenas um grupo sozinho dirija o movimento, O desafio é conseguirmos criar uma forma de dirigir o movimento que seja aberta e democrática. Que as divergẽncias, que existem, sejam expostas, respeitadas e discutidas, mas principalmente, que na hora da ação tenhamos unidade, para que não nos falte força. A isso chamamos de direção coletiva.

O outro grupo (PSTU), que, junto a estes setores da antiga gestão a que nos referimos (MES/Juntos!, CSOL/Barricadas e Rosa do Povo/Domínio Público), compõe agora a Não Vou Me Adaptar!, também não foge disso. Sua gestão em 2009 (Nada Será Como Antes) se caracterizou basicamente pela construção da ANEL e o negligenciamento das necessidades do movimento – não realização do X Congresso dos estudantes, sem falar na retirada da gestão em plena greve no Butantã para o congresso de fundação da ANEL.

Até semanas antes das inscrições de chapa, as duas correntes (MES e PSTU) viam-se como inimigos absolutos no movimento estudantil da USP, e ninguém esperava que viessem a compor uma mesma chapa para o DCE. Com a justificativa de enfrentar a direita nas urnas, empreendem uma junção tão artificial que era inimaginável há pouquíssimo tempo para seus próprios militantes. O movimento precisa de unidade sim, mas unidade efetiva, no dia-a-dia (Leia nossa resposta ao “chamado de unidade” que nos foi feito pelos grupos que compõem a Não Vou Me Adaptar!). Infelizmente, nada nos faz crer que essa “unidade” é para exercerem uma “direção mais coletiva” do movimento. É uma unidade meramente eleitoral, entre quem não quer por nada sair do aparelho e quem quer por tudo nele estar, e que não vem acompanhada da necessária mudança na prática de fazer movimento. Em 2010, por exemplo, digladiaram-se na eleição e por 50 votos a Reconquista, a chapa da direita, não ganhou. Definitivamente, não é a reprodução dos vícios levada às últimas consequências o que o movimento precisa para se fortalecer e combater a direita.

É com muita franqueza que fazemos essas críticas. Mas são críticas que vem de reflexões sobre problemas reais e latentes que existem no movimento, e que portanto precisam ser colocadas, sobretudo pela preocupação que tais problemas nos causam.

Afirmamos que são preocupações pois as consequências que o vazio político deixado por uma política que prioriza a autoconstrução dos grupos e não o fortalecimento do ME, é um movimento rachado e um crescente rechaço às entidades, aos partidos de esquerda e a qualquer forma de organização. Este vazio político é ocupado tanto pela direita quanto por setores inconsequentes do movimento e que acabam ditando táticas impensadas.

O setorradicalizado

Do outro lado da moeda, vemos predominar uma ideia de movimento que preza sempre pela ação aparentemente mais radical, como se a ação direta fosse nosso único instrumento capaz de levar adiante a luta contra a política da reitoria. Há aí um erro grave: nem a ação direta é o único instrumento capaz de fazê-lo, nem tampouco deve ser encarada sempre como um erro tático.

Nesse setor se insere com peso fundamental a chapa 27 de Outubro. Uma das coisas que tal setor tem feito é colocar os estudantes contra suas entidades representativas, principalmente o DCE. Além da calúnia de que ele “entregou os estudantes para o camburão da polícia”, deslegitimaram as entidades estudantis de diversas formas: barrando a participação de estudantes diretores de Centros Acadêmicos ou do DCE em espaços do movimento (como nas comissões da ocupação da administração da FFLCH), com gritos, a todo momento, de “Fora DCE!”, ou com as repetidas solicitações de mudar as mesas de assembleias gerais e de curso e de dissolução das entidades e sua substituição pelos delegados do Comando de Greve – ainda que essa proposição nem sempre fosse feita de maneira clara.

É certo que as últimas gestões do DCE pouco têm contribuído para que os estudantes tenham a entidade como referência, como já dissemos, e daí o sentimento anti-DCE ter prosperado facilmente nos últimos tempos. Entretanto, o rechaço ao DCE e às demais entidades é ruim para o movimento, pois nos divide e nos enfraquece. As entidades são instrumentos importantes de auto-organização independente dos estudantes. Auto-organização, sim, uma vez que são estudantes eleitos por estudantes, sem interferência de reitoria, professores ou do que quer que seja. Por isso, as entidades estudantis são conquistas históricas dos que lutam. A organização nos dá força, nos unifica, e seu enfraquecimento só é bom para a reitoria e para o governo estadual.

É importante também observarmos o papel que tem cumprido o Comando de Greve. Ele pode e deve cumprir importante papel em momentos de plena mobilização, servindo de instrumento para a execução de tarefas quando há grande movimento. Entretanto, na prática ele tem sido usado como tentativa de substituir as entidades estudantis. E isso acontece quando se decide, por exemplo, que a Calourada Unificada seja realizada pelo Comando de Greve e não pelos Centros Acadêmicos. Era importantíssimo que fossem esses últimos que realizassem a calourada conjuntamente, pois isso fortalece a organicidade entre os movimentos dos cursos e o movimento geral, cria referência das entidades estudantis entre os calouros, integra os diversos campi da capital e, principalmente, do interior, que também têm estudantes que fazem movimento, mas não estão integrados num comando de greve que é demasiado centrado no Butantã.

Aproveitando-se de um problema do movimento – a deslegitimação das entidades – e alimentando-o, o Comando de Greve autonomizou-se, adquiriu uma dinâmica interna própria semelhante à de uma assembleia, com pouco diálogo interno e votações sempre polarizadas, com ligeira vantagem para os setores identificados com a 27 de Outubro. Assim, a tentativa de substituir as entidades pelo Comando coincide com o intuito por parte deste setor de incidir mais nas decisões e na direção do ME e alimentar uma ideia de movimento no qual somente os “estudantes mobilizados” devem ser representados. Diversas vezes ouvimos a defesa de que “o comando representa os estudantes mobilizados”. Ou seja, não querem que o movimento busque representar todos os estudantes, mas apenas os “mobilizados” – é a concepção que compreende que a vanguarda, setor “mais avançado” do movimento, deve “puxar” ou “rebocar” a base, e não permitir que o setor “mais atrasado” (direção burocratizada – no caso, as gestões das entidades) dirija o movimento.

Outro ponto importante diz respeito aos golpes que sofremos por parte da reitoria: prisões, reintegrações de posse, expulsões etc.. Todas essas ações ocorreram onde o movimento estava mais fragilizado: ou isolado, ou rachado. E quais foram essas ações?

Uma delas foi a ocupação da reitoria. É claro que era justo ocupar a reitoria, pois o autoritarismo com que a reitoria vinha e vem implementando suas medidas requeria que tomássemos medidas igualmente radicais. O problema é que, no momento em que a ocupação ocorreu, o movimento estava dividido ao meio. A ocupação já nasceu rachada, portanto não havia sequer possibilidade de ser um movimento unificado de todos os estudantes, pois começou já sem o apoio de metade dos que estavam na assembleia que a precedeu. Independente do mérito das questões daquele momento (se devíamos ou não votar a ocupação mesmo com o horário, se a assembleia devia ter sido encerrada daquela forma etc.), o importante é entender que aquele foi o auge da polarização entre dois lados apontados, onde a ausência de diálogo entre nós atingiu o ápice e uma parte via a outra com – não é exagerado dizer – um ódio assombroso. Ocupação de reitoria rachada, no momento de maior divisão e fragilidade do movimento, é prato cheio para a ofensiva da reitoria e do que há de mais conservador na sociedade. Resultado: prisão de 73 estudantes que estavam na ocupação, e, por parte da mídia, um tratamento tão agressivo quanto a ação policial.

Naquele momento, apoiamos a ocupação da reitoria, pois ela só ocorreu porque não há espaços nessa universidade para que os estudantes sejam ouvidos e por isso somos obrigados a gritar para que nos ouçam [leia nossa nota sobre a ocupação]. Não havia como ser diferente. Internamente, entretanto, criticamos a irresponsabilidade de setores como o 27 de Outubro que, desde o início, se esforçaram em estimular o clima de beligerância interna a que chegamos, onde um setor dos estudantes enxerga o outro praticamente como seu pior inimigo, culminando com a atitude inconsequente de realizar uma ocupação rachada. Reparem, achamos que, não só nesse episódio, mas durante todo o processo, houve erros graves de ambos os “lados”. E esse que acabamos de apontar é um deles.

Assim, outro exemplo de ações do movimento que ocorrem ignorando-se completamente a conquista do apoio da maioria e a coesão entre os estudantes diz respeito à Moradia Retomada (ocupação da Coseas), em função da qual 6 estudantes foram expulsos em dezembro e que sofreu reintegração de posse em 19 de fevereiro deste ano, com o saldo de mais 12 presos, entre eles uma garota grávida. Desde o início ela se tornou um movimento isolado inclusive entre os estudantes do próprio CRUSP. A pauta da moradia e da assistência estudantil é incontestavelmente justa e latente dentre aqueles estudantes. Se é assim, porque são tão isolados até no CRUSP, a ponto de na penúltima eleição da Associação de Moradores ter sido eleita uma gestão que se dizia de direita e que era totalmente desconhecida até então? Seria porque os moradores do CRUSP são de direita? Não! Mas sim porque não queriam de jeito nenhum o grupo da Moradia Retomada novamente na gestão. E por que isso? Porque não há preocupação, por parte desse grupo, em se obter o apoio da maioria. Essa é uma característica de muitos setores do movimento estudantil da USP, setores que têm tido ampla reverberação nas mobilizações desde outubro, e por isso atentamos para esta preocupação.

Temos que voltar a ter como objetivo conquistar o apoio da maioria. Justamente nos momentos em que o movimento menos se pauta por isso, é que sofremos as piores derrotas.

E nós, onde ficamos nisso?

Cabe aqui também fazermos uma autocrítica de nossa atuação. Estivemos presentes e ao máximo atuantes em todas as assembléias gerais, nas assembléias de cursos e campi onde nos encontramos, no comando de greve. Entretanto julgamos que na prática ainda não conseguimos romper a polarização que foi dominante (e provavelmente ainda é) durante o processo. Somos um grupo novo, formado no final do ano passado (às vésperas do início de toda essa mobilização) por setores e indivíduos descontentes com a forma predominante de como se vinha fazendo movimento estudantil na USP, que se juntaram pra conseguir colocar a sua opinião no movimento. Com todas as limitações que a realidade nos impõe, num movimento altamente polarizado e hostil, é isso o que temos tentado fazer.

Um dos momentos em que nos posicionamos claramente foi na decisão da última assembléia do ano, que deliberou a continuidade da greve durante as férias. Fomos contra a proposta porque é no mínimo duvidoso a viabilidade de conseguirmos efetivar uma greve em início de ano, com calouros que chegam e, enquanto tais, querem conhecer o mundo acadêmico no qual entram. E, mesmo que façamos uma calourada muito boa e que convençamos muita gente a respeito dos desmandos da reitoria, entendemos que empurrar uma greve no início do ano pode nos fazer atrair, desnecessariamente, a antipatia de um sem-número de outros estudantes (que estão entrando agora e aqui vão permanecer mais 4, 5 anos) com o movimento.

Pensamos que uma boa forma de conseguirmos retomar o movimento e fortalecê-lo é fazermos dias inteiros de paralisação em toda a USP. Conseguríamos efetivar isso muito mais do que uma greve de início de ano e daríamos a possibilidade de que outros campi (e não só o Butantã) também conseguissem fazê-lo (São Carlos, por exemplo, realizou paralisações durante as mobilizações do ano passado).

Os desafios do movimento para 2012

O movimento já demonstrou que pode ter muita força. Mas não demonstrou saber usá-la de forma a obter vitórias. É empolgante assistir a assembleias com 3 mil estudantes e grandes atos, ver que ainda há muita capacidade de indignação dos estudantes, mas de nada adianta nosso movimento se os únicos resultados concretos que obtemos são prisões, expulsões e um movimento cada vez mais dividido internamente, onde um lado enxerga o outro literalmente como inimigo.

Podemos avançar, temos condições reais de fazê-lo. Mas para isso é necessário que utilizemos as táticas corretas da forma correta. Que nos utilizemos tanto das ações diretas quanto das “indiretas”, que visam o diálogo e o convencimento. Que quando façamos uma ocupação, por exemplo, estejamos coesos, com “força máxima”, e principalmente buscando o apoio da maioria dos estudantes e do máximo possível da sociedade (essa preocupação também deve existir). Somente se tivermos como objetivo a conquista do apoio da maioria é que conseguiremos tensionar a reitoria e fazê-la recuar.

E, para nós, mais do que uma greve forte, é preciso que o movimento na USP esteja forte. E movimento forte é movimento com participação de muita gente, envolvida nos mais diversos tipos de ações. Precisamos ampliar o contato para além dos muros da Universidade. Ações como a do Fórum de Extensão (que pintou o muro que divide a Cidade Universitária da São Remo) devem ser construídas e fortalecidas. O 8 de Março, na primeira semana após a calourada, dia histórico da luta das mulheres, também é um bom momento para nos desafiarmos a tocar pautas que dialoguem para além da USP, e para mostrar que temos muitas pautas em comum com outros movimentos.

Nesse mesmo sentido, temos de entender que a luta dos estudantes é a mesma luta de diversos outros setores da sociedade. Devemos estar articulados com outros movimentos, e fazer ações conjuntamente. Assim, temos mais força para avançar. Dentro dessas articulações é prioridade que estejamos ao lado do movimento negro na luta por cotas e por acesso na USP, para que o povo esteja na universidade e esta seja mais diversa e democrática.

Precisamos fortalecer o vínculo entre as categorias, tomar a iniciativa de dialogar mais e atuar conjuntamente com trabalhadores e docentes.

É necessário fortalecer o movimento em toda a USP, não no Butantã, não na FFLCH. O movimento deve acontecer em todos os lugares – não com figuras iluminadas que saem da FFLCH para levar o conhecimento para os outros – mas a partir de cada realidade local, no esforço de construir identidade e solidariedade entre nós. Isso é cotidiano e envolve uma preocupação igualmente importante e que vai além dessa maneira de fazer movimento com que muitos de nós estamos acostumados.

Assim, a melhor tática para o início do ano será centrar nossas forças na construção de uma maioria real: é preciso que o movimento esteja com o grosso dos estudantes, nos cursos, realizando debates, produzindo materiais, aumentando a circulação de informações, para dentro e para fora da Universidade. E também realizando grandes assembleias nos cursos, para que o movimento seja, de fato, dirigido pela base, de modo que consigamos criar uma força política real, capaz de obter conquistas.

Nota do Coletivo Universidade em Movimento sobre a agressão contra aluno da USP pela PM

Não é de hoje que a Universidade de São Paulo tem problemas. Não é de hoje que sua estrutura é altamente anti-democrática, e nem é de hoje que o aparato policial é utilizado para vigiar os estudantes que participam ativamente dos processos políticos da Universidade.

Porém, o ano de 2011 foi especialmente atribulado: tivemos uma atuação completamente desnecessária da PM contra três estudantes que usavam maconha (20 viaturas para três alunos); a desocupação da reitoria, feita por 400 policiais (incluindo Tropa de Choque, GATE, cavalaria…), que terminou na prisão de 73 estudantes; e a expulsão de 6 estudantes da USP, por “ferirem a moral e os bons costumes”.

Em 2012, Rodas já demonstrou que a dinâmica não será muito diferente. No dia 09 de janeiro, em operação de desocupação da sede do DCE (localizada ao lado do Bandejão Central), mais uma vez foi possível presenciar a ação truculenta da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

A desocupação do espaço do DCE já é, por si só, um ataque, posto que se trata de um espaço estudantil, que deveria ser autônomo. Porém, a situação piora com a presença da Polícia Militar, pois evidencia que não há vontade alguma de diálogo por parte da reitoria.

Um dos estudantes que ocupavam o lugar, Nicolas Menezes Barreto, do curso de Ciências Naturais (EACH), foi agredido pelo sargento André Luiz Ferreira, que chegou a apontar uma arma de fogo para o aluno. O sargento havia questionado se Nicolas era estudante da USP e exigiu sua documentação, ao que o aluno respondeu que bastava sua palavra.

Gostaríamos de enfatizar que, ainda que Nicolas não fosse aluno da USP, nada justifica a agressão policial, sobretudo porque a Universidade é um espaço público, e não deve ser exclusividade daqueles que passaram no vestibular.

Além do mais, vemos nesse caso uma clara demonstração de racismo, pois o estudante abordado (e agredido) foi justamente o único estudante negro presente. Não foi necessário que os brancos comprovassem seu vínculo com a Universidade. O negro, porém, é “bandido até que se prove o contrário”.

O ocorrido foi registrado em vídeo (parte 1 e parte 2), e ilustra bem o papel que cumpre a Polícia Militar no campus: não para garantir a nossa segurança, mas para garantir a manutenção de um projeto de Universidade que só serve aos interesses da reitoria e de uma elite por ela representada.

Nós, do coletivo Universidade em Movimento, nos colocamos veementemente contra a agressão que ocorreu, bem como todas as arbitrariedades cometidas pela reitoria e pela PM, dentro e fora da USP. Estaremos lado a lado com todas e todos que lutam por uma Universidade pública, gratuita, inclusiva e de qualidade, que atenda às demandas da população, e que seja um espaço que preze pelo livre pensar.

Lutar não é crime!

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