Balanço das eleições para o DCE e Representantes Discentes 2012 da USP

Antes de qualquer avaliação sobre as eleições, gostaríamos de agradecer a todas e todos que participaram do processo eleitoral para a diretoria do DCE e RDs de 2012, em especial, àqueles que fizeram campanha, se envolveram, apoiaram e depositaram um voto de confiança na Universidade em Movimento. Sabemos que esse voto representa confiança em nosso programa e, principalmente, na prática cotidiana que desenvolvemos no movimento. Foram 2579 votos, com votações expressivas em diversos lugares (vencemos em 9 cursos e em 3 Campi). Agradecemos e vamos além: mantemos o convite para a construção de um movimento baseado na legitimidade da maioria, a partir das entidades de base (Centros Acadêmicos, Secretarias Acadêmicas, Centrinhos de Curso etc.), que reflita sobre as próprias práticas e tenha foco no debate político aberto. Só assim podemos garantir o crescimento e fortalecimento das nossas lutas. A eleição é apenas mais um capítulo. Para a Universidade em Movimento, todos devem continuar em cena, participando e crescendo na pluralidade, pois é aí que estão a nossa força e a nossa voz para mudarmos a Universidade.

Sabemos que hoje a USP passa por graves ataques, que ameaçam tanto seu caráter público, quanto os que se colocam em sua defesa. Sem dúvida, uma eleição com o maior quórum dos últimos anos e uma expressiva votação (mais de 10 mil votos) em chapas que abertamente defendiam o “Fora Rodas” foi uma importante resposta. Esses votos trazem consigo a luta por democracia na USP, contra a repressão política expressa na PM e, enfim, a luta por outro projeto de Universidade, que não o do Reitor Interventor e seu José Serra. Além disso, o resultado das eleições demonstrou que a chapa Reação, que trazia em seu programa grande acordo com a gestão Rodas, não teve viabilidade eleitoral e que seu discurso, em favor dos projetos da reitoria, não repercutiu entre os estudantes.

Durante as eleições, buscamos fazer frente a este projeto, desejado pela reitoria e pelo governo do PSDB para a USP. Esse projeto, implementado de maneira mais agressiva pela gestão Rodas, traz, por um lado problemas estruturais e de gestão da universidade, como a falta de professores, salas de aula superlotadas, estrutura administrativa que prioriza interesses privados em detrimento da participação da sociedade e uso do dinheiro público para fins particulares. Por outro, ao invés do diálogo, vemos a repressão de quaisquer movimentações políticas, através de prisões, processos, expulsões e grandes operações policiais. Assim, caminhamos para uma USP cada vez menos voltada aos interesses da sociedade e que abriga uma pluralidade cada vez menor de opiniões, minando a reflexão crítica e coletiva, fundamental para a universidade.

Para a Universidade em Movimento, porém, além de identificarmos tal projeto e propormos uma alternativa pública e democrática a ele, precisamos criar as condições para vencermos esta batalha. Isso passa por identificar os erros de nosso movimento e nos reinventarmos. Assim, nossa opção foi, durante a campanha, também pautar outra maneira de construir o movimento estudantil, através de novas práticas, que fortaleçam o movimento como um todo e não apenas um ou outro grupo. Acreditamos na necessidade das Entidades de Base serem protagonistas do movimento, para que cada vez mais estudantes participem, como também acreditamos na necessidade da unidade, baseada no respeito e na confiança.

Nosso maior objetivo é transformar a USP, invertendo suas prioridades, a fim de colocá-la a serviço dos interesses mais amplos e legítimos da população, e só conseguiremos isso com um movimento forte e legitimado entre os estudantes.

Entretanto, nossa opção por criticar os métodos hegemônicos do movimento nos rendeu muitas acusações. Segundo nossos adversários, levantar tais problemas fortaleceria os nossos maiores inimigos, identificados não só na Reitoria, mas também na chapa Reação durante o processo eleitoral. Para nós, por outro lado, não tocar nesses problemas é o que realmente fortalece o sentimento anti-movimento estudantil e impede que nos tornemos mais fortes na nossa luta. Reconhecer os problemas do movimento e propor mudanças para superá-los é essencial para que caminhemos no sentido das conquistas e vitórias.

Entendemos a eleição do DCE como momento fundamental, não apenas por se tratar da escolha da futura gestão da entidade, mas principalmente pelo debate em torno das propostas e avaliações do movimento. Infelizmente, nessas eleições, o debate político foi esvaziado e a política genérica “para a direita não ganhar” se sobressaiu, mesmo quando esse setor não tinha chance alguma.

Inclusive, entendemos que a chapa Reação representou nessas eleições muito mais um sentimento anti-movimento, que um acordo com o projeto implementado pela reitoria. Muitas vezes, esse voto representa mais uma insatisfação com o funcionamento do movimento do que um voto ideologicamente aliado à direita e à gestão Rodas. Atribuir à “chapa da Direita” todas as ameaças ao movimento estudantil e crer que a derrotando teremos automaticamente todas as soluções para nossos problemas é, no mínimo, ilusório. Além disso, isenta o movimento de fazer uma autocrítica qualificada e urgente de suas últimas experiências e de pensar nos motivos reais que levaram ao fortalecimento destes setores que preferem apostar no fim do movimento ao invés da superação de seus problemas. Ainda mais porque a “direita” só cresce e tem eco porque o próprio movimento tem criado o rechaço da maioria dos alunos. E a causa é a maneira como o movimento vem sendo construído, favorecendo a autoconstrução dos grupos, não dando condições para o protagonismo das Entidades de Bases e ignorando as demandas dos estudantes. Derrotar eleitoralmente a Reação é uma conquista de todo o movimento estudantil e um passo importante, porém pequeno perto do desafio de barrar o projeto em curso na nossa Universidade.

Essa lógica hegemônica no movimento estudantil, que só faz abrir espaço para o conservadorismo, foi expressa também durante a apuração das eleições. Lamentamos profundamente o comportamento dos companheiros da chapa “Não Vou Me Adaptar” nessa ocasião. As palavras de ordem servem para dar voz ao movimento quando ele vai unido para a rua se manifestar. Porém, neste caso foram utilizadas de maneira provocativa, desrespeitosa e personalista. Tratou-se de uma agressão gratuita, de quem confunde unidade com adesão, voto com propriedade, entidade com grupo e adversário com inimigo. Essa crítica não pode deixar de ser feita, porque é justamente o prevalecimento desse tipo de prática no interior do movimento uma das principais causas do nosso isolamento e das derrotas que temos sofrido. Tal comportamento – que não foi exclusividade do momento da apuração, ocorreu em toda a campanha – contrasta inclusive com o discurso que os companheiros fizeram quando passavam em sala durante a campanha, em que se colocavam como a expressão da unidade do movimento.

Esperamos que a nova gestão se esforce para mudar esse tipo de prática e tenha sucesso. É fundamental que ela seja construída de maneira coletiva e potencialize os legítimos espaços dos estudantes, Estaremos ativamente envolvidos na construção do movimento, da mesma forma como estaremos dispostos a contribuir com a gestão e fazer a crítica de forma construtiva, sempre que necessário. Consideramos fundamental que o DCE garanta a realização do Encontro de Centros Acadêmicos (EnCA) e de Conselhos de Centros Acadêmicos (CCAs) mensais, assim como esperamos que o XI Congresso dos Estudantes da USP, o mais importante espaço deliberativo do movimento, seja construído.

Pelo fim do convênio USP-PM e da repressão e criminalização dos movimentos sociais! Pelo fim dos processos criminais e administrativos! Pelo fora Rodas! Por uma estatuinte livre e soberana! Por um movimento amplo, de estudantes, professores e servidores técnico-administrativos. Por uma universidade mais mulher, mais negra, mais popular, mais democrática, mais participativa e transformadora. Por tudo isso, seguiremos na política de colocar a Universidade em Movimento!

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Publicado em 08/04/2012, em Acúmulo, Nossos textos, Posicionamentos. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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