Como combater a direita no Movimento Estudantil?

Muito se tem falado sobre como devemos deixar as “disputas fratricidas” de lado e prezar pela unidade neste momento das eleições para que não deixemos que a direita vença. De fato a unidade é necessidade urgente, no movimento estudantil e para além dele, assim como é certo que não queremos uma gestão do DCE que represente os interesses da Reitoria e do governo de SP e não dos estudantes. Entretanto é importante que nos aprofundemos sobre a questão, para desmistificamos o argumento do “voto útil conta a direita”.

A primeira coisa que nos perguntamos, é: por que deveríamos fazer voto útil na chapa “Não vou me adaptar” para barrar a direita se a causa de seu fortalecimento é justamente a prática de grupos como os que compõem a chapa?

O argumento apresentado para justificar a “unidade” é a necessidade de barrar a direita nas eleições. Ora, se queremos realmente barrar a direita, é preciso que façamos isso politicamente e não apenas eleitoralmente. Vale lembrar que no último período, o que prevaleceu não foi o trabalho de base e fortalecimento das entidades e do movimento, mas o sectarismo e a autoconstrução. Não foi também a construção de atividades unitárias do movimento como o Encontro de Centros Acadêmicos (EnCA) e o Encontro de Mulheres Estudantes (EME), mas a priorização de pautas e espaços que serviam apenas aos grupos. De que serve combater a direita nas urnas se não o fizermos ao longo do ano, construindo o movimento?

O suposto perigo de a direita ganhar o DCE justificaria a incoerência de uma unidade meramente eleitoral. No entanto, a direita já esteve mais forte (em 2009, quando realmente quase levou as eleições) e nenhum dos grupos, que hoje clamam pela unidade, levantaram essa questão. Esse argumento não tem base real. Trata-se de um discurso repetido à exaustão de maneira a esvaziar o conteúdo político do debate. Uma tentativa de generalizar um sentimento de medo, a fim de fazer passarem batidas as falhas do movimento e a incoerência dessa aliança.

Como afirmamos em nossa resposta ao chamado de unidade, a direita cresce no movimento estudantil porque há um vazio político deixado pelo DCE. Isso acontece porque, infelizmente, a maior preocupação das últimas gestões tem sido a de construir os grupos que as compunham. Em 2009, o PSTU (“A USP que queremos”, mas, na época, “Nada Será Como Antes”), não poupou esforços em construir o CNE – Congresso Nacional de Estudantes -, que fundou a ANEL, campo político do partido. Aliás, vale lembrar que o mesmo grupo, enquanto gestão do CAELL – Centro Acadêmico do curso de Letras -, não fez outra coisa a não ser autoproclamar-se, a ponto de muitos estudantes pensarem que a ANEL e o CAELL eram a mesma coisa. Nos outros anos, mas principalmente em 2011, o MES – agora “Juntos!” – não poupou esforços em fazer propaganda de si próprio. Enquanto DCE, convocaram diversas atividades (como o “15.O”), porém, iam às atividades enquanto “Juntos!”. Assim, o DCE simplesmente desaparecia no meio das camisetas e cartazes do grupo.

Apesar de prezar pela unidade, tais grupos não se preocuparam também em realizar uma atividade de divulgação da chapa no mesmo momento de uma atividade da Calourada Unificada, outro espaço do movimento estudantil, que deveria ser unificado.

Outra causa do fortalecimento da direita é a forma espontaneísta e inconsequente de atuação de alguns setores do movimento estudantil, que compõe ou compunham a “27 de Outubro”. Esta forma de atuação não faz nada além de dividir o movimento e dar mais forças para a reitoria nos atacar. Acham que a única saída é a ação direta e acabam por tomar atitudes suicidas, como votar greve em assembleias de curso esvaziadas, ou a própria ocupação da Reitoria, com o movimento rachado.

Ante a ameaça da direita, temos uma alternativa: o trabalho de base, o fortalecimento das entidades estudantis (CAs, DCE) e de seus fóruns. Desde o início de nossos debates, que culminaram na formação da chapa Universidade em Movimento, é o que temos pautado. É fundamental nesse momento sermos capazes de coesionar o movimento e somar forças para fazer frente aos ataques da reitoria. Todos afirmam serem contra o sectarismo e que é preciso unidade no movimento. Pois bem, isso se faz na prática, não com chamados ou manifestações de “apoio crítico” completamente vazias de conteúdo político.

Ignorar que existe um problema no movimento estudantil seria, mais uma vez, empurrar a situação com a barriga. Derrotamos a direita nas urnas agora e, no próximo ano, ela estará mais forte. A solução não está nas urnas: é preciso que acabemos com os vícios do movimento estudantil, que têm sido os maiores responsáveis pelo fortalecimento da direita.

Estamos aqui para fazer um movimento com todos. Um movimento que mobilize maiorias, e não que mobilize minorias. Estamos contra a Reitoria e contra a Reação, mas para essa luta precisamos ir pra além de um movimento que mobiliza apenas vanguardas, incapaz de massificar as lutas.

Nossa chapa conta com membros e apoiadores em vários campi da USP. Temos condições reais de ganhar as eleições e vamos lutar para isso. Não somos um agrupamento composto por interesses meramente eleitorais. Mais do que isso, nosso objetivo é contribuir para uma outra lógica de movimento estudantil, forte, coeso, pautado pelos estudantes, que acumule vitórias e não derrotas. Só assim conseguiremos fazer frente aos desafios impostos.

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Publicado em 20/03/2012, em Acúmulo, Nossos textos, Posicionamentos. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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