Universidade & ME*

Estudar e debater nossa Universidade coloca-se como tarefa crucial se desejamos atuar no movimento estudantil de maneira propositiva e coerente. Em primeira instância, porque somente com um diagnóstico consistente da realidade podemos formular a movimentação necessária para entender como ela nos afeta e alterá-la. Em segundo lugar, pela necessidade de avaliação permanente e de reformulação criativa das práticas e métodos que utilizamos.

A Universidade de São Paulo é a mais elitista do país, desde sua fundação. Foi criada para educar os filhos das elites paulistas e, não por casualidade, em sua entrada principal existe um pé de cana e um de café. Essa concepção se reflete no fato da USP não possuir um programa efetivo de cotas, sejam sociais, ou raciais, e desenvolver, no lugar disso, programas como o Inclusp que apresentam inúmeros problemas. Ou ainda em seu serviço de permanência estudantil, que não contempla todos os estudantes. Para, além disso, a USP é uma das poucas Universidades do país onde a maior parte da sociedade universitária é afastada do processo de escolha do Reitor, ficado esta ao encargo de um seleto grupo que compõe o Conselho Universitário e a mercê da ratificação do Governador.

Nesse sentido, é importante uma retomada do Movimento Estudantil (ME) da USP desde 2000 até os dias atuais, para percebemos em que medida a Reitoria avança com seu projeto para a Universidade e ponderarmos pelo que passou o ME ao longo dessa década, quais pontos avançaram, e qual caminho ainda temos a percorrer. Inclusive porque muitas vitórias já foram conquistadas, e as lutas travadas para que elas acontecessem parecem cada vez mais distantes d@s estudantes. E com isso, a própria existência do ME começa a ser ou questionada pel@s alun@s, ou desvalorizada, aumentando a dificuldade em realizar ganhos e travar lutas concretas atualmente.

O Movimento Estudantil nos anos de 2000 e 2004, muito também pela conjuntura da esquerda nacionalmente no Brasil, mostrava-se mais coeso, próximo d@s estudantes, com centros acadêmicos fortes e enraizados nos cursos, além de espaços de formação e debates para tod@s participarem. Era um período de ascenso  da esquerda na Universidade;  lutas sendo travadas, campanhas salariais, reivindicação de verbas do ICMS para a educação

No período que vai de 2004 a 2006 o cenário político da esquerda no país é outro, afetado pelas eleições de Lula. O processo que acontece no ME da USP é uma grande fragmentação, crescimento do sectarismo, a autoconstrução  como objetivo central de parte da militância, e o vanguardismo aflorando muito mais forte. Toda essa realidade acaba por afastar a base, esvaziar o ME, menos alunos participando das atividades e instâncias, e, consequentemente, a perda de referencialidade dos CA’s, do próprio DCE e do ME como um todo.

É nesse cenário que acontece a Ocupação da Reitoria em 2007, um movimento muito importante e que conseguiu conquistas, mas que ao mesmo tempo explicitava esse crescente processo de afastamento do restante dos estudantes e o quanto as entidades não tinham mais influência, uma vez que foi um movimento espontâneo e não impulsionado ou tocado pelo diretório dos estudantes.

Após a ocupação (que logrou conquistas, e não se trata de questioná-las), percebe-se que o ciclo vicioso de sectarismo, vanguardismo e esvaziamento intensificam-se, aumentando ainda mais o disputismo, a autoconstrução, o rechaço aos partidos…  Isso reflete no fato de que o V Congresso da USP (de estudantes, servidores e docentes) não chegou a acontecer como deveria, nem se travou luta no período de eleição para Reitor.

Paralelamente a esse cenário do ME, a Reitoria começa a se endurecer cada vez mais, bem como o Governo Estadual e o fortalecimento da direita dentre os estudantes, aumentando o nível de truculência. E, dada a desarticulação do movimento, conseguiu avançar sua política pela Universidade.  O “Fora Suely”, e a entrada da PM no campus Butantã, articularam parcela dos estudantes, mas ainda assim o movimento não se recuperou, nem saiu do ciclo vicioso para entrar em um virtuoso com crescimento, participação e fortalecimento, ou sequer pautou concretamente a importância do ME para a ampla parcela universitária.

Entendendo que existia uma necessidade de mudar essa lógica no ME, de autoconstrução, sectarismo, vanguardismo, ser capaz de acolher mais alunos, travar mais lutas e se inserir mais na realidade concreta, surge a chapa e futura gestão de DCE Transformar o tédio em melodia. Esta tinha como objetivo combater a direita e o esquerdismo, criar instâncias capazes de deliberar e construir coletivamente um projeto para o ME. Assim o Conselho de Centro Acadêmicos, o Encontro de Centros Acadêmicos e o X Congresso foram instâncias priorizadas na tentativa de transformar a lógica que estava posta nos últimos anos para o ME.

Houve problemas na gestão de DCE, como a omissão no processo de luta da Moradia Retomada, ou do espaço do CA da Faculdade de Terapia Ocupacional, nem travar uma luta concreta e conjunta com vitórias, mas ainda assim conseguiu acumular positiva e propositivamente para o Movimento. E permitiu a criação da chapa Todas as Vozes com composição de grande parte da esquerda e que venceu com ampla margem de votos derrotando o fantasma da direita no DCE.

O ano de 2011, contudo, começa com um processo de intensificação da truculência da reitoria. As diretrizes da gestão Rodas começam por reformular e avaliar os cursos da USP através de critérios como número de candidatos/vaga (“demanda social”), possuir caráter mercadológico, bom destino aos egressos, e propostas de multidisciplinaridade, tendo em vista uma formação mais generalista.  Alegam a necessidade de garantir a excelência acadêmica, realizando aumento nas notas de corte, direcionamento para o produtivismo na academia.

A Reitoria investiu em duas frentes para isso: A primeira, baseada no corte de cursos, redução de verbas, instalação de educação a distância (Univesp). A segunda, tecnóloga, com superinvestimentos e uso de tecnologia de ponta nos campi e cursos com esse viés, recorrendo a verbas extra orçamentárias (como, por exemplo, fundações). Ao mesmo tempo o ME estava desarmado, a construção da unidade, da coletividade, não avançaram, o que resultou na incapacidade de dar uma resposta concreta, real e conjunta as políticas da reitoria.

O então objetivo de um DCE capaz de formar, organizar e fortalecer a militância e os CAs (entidades de base) foi soterrado por uma idéia de falsa unidade, de picuinhas, beligerância, e pela mesma lógica que se propunha a combater. O movimento iniciado em 2010 que precisava ser fortalecido estagna, sem avanço na realidade concreta. Nesse cenário surge a necessidade de refletirmos sobre os desafios que estão colocados e de realizar uma análise do ME e perceber se existe trabalho de base sendo feito, se a participação e engajamento dos estudantes estão maiores, se os CAs estão mais fortalecidos e pautando o ME. Se a unidade está de fato acontecendo, se as instâncias como CCAs, acontecem e são efetivas. Das pernas que o ME tem para responder aos ataques da reitoria, e se caminhamos para construir um ME menos elitista e mais popular, enfrentando a direita, o capitalismo, o conservadorismo e o patriarcado.

Nenhum desses questionamentos possui respostas prontas, nem existe uma fórmula mágica para sairmos desse ciclo de esvaziamento e sectarismo. A resposta para o diagnóstico da Universidade deve ser construída coletivamente, para construirmos o DCE que queremos. Para podermos, conjuntamente, militar e construir através de novos valores fóruns e instâncias na Universidade capazes de gerar um novo fazer político, uma nova prática, nos atentando sempre se temos conseguido fazer a universidade mais povo, mais mulheres, mais negras e negros. Se estamos sendo propositivos, e se, sobretudo, abandonando as disputas fratricidas, nos colocamos novamente como um poder em potencial.

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*Esse texto foi redigido com base no acúmulo do primeiro debate da Universidade em Movimento.

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Publicado em 04/10/2011, em Acúmulo e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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